7 de ago de 2011

O medo é um recuo

Acabei de praticar e estou andando por uma rua silenciosa e arborizada. Ainda é cedo e o ar está levemente frio, o sol começa á aquecer o dia. Ando vagarosamente, sem presa, observando e me deliciando com tudo que estou percebendo e sentindo. No meio desse estado de abertura e tranqüilidade sou surpreendido por um cachorro latindo e pulando, me atacando pela brecha de um portão. Mais do que um susto, foi um choque. Numa fração de segundo me encolhi, me defendi, saí do estado de abertura e de entrega que estava até então. Tive medo e recuei. Essa reação instintiva não aconteceu apenas no meu corpo físico, ela foi ainda mais evidente em meu estado de espírito, em minha percepção. Vi-me encolhendo num gesto de proteção. Num segundo, passei por estar aberto, ser “atacado”, ter medo, me fechar, perceber minha reação defensiva e me abrir novamente.
O que pensei depois foi que esse é um movimento primordial em nossa vida. Abrir e fechar, expandir e recuar, externo e interno. Precisamos dessas duas direções de fluxo, desses dois movimentos básicos, sendo que, em um deles a energia vai para o mundo externo e no outro ela vai para o nosso mundo interno.
O medo é uma emoção que nos fecha em nós mesmos, nos leva para a defensiva, para o recuo diante da vida lá fora. No medo encolhemos os ombros, fechamos o peito, contraímos os músculos e congelamos a respiração, em resumo, no medo a vida pára.
O contrário disso é a abertura , a entrega, a expansão. Se não há medo, os olhos podem enxergar, o rosto tem expressão e não se fecha, a respiração é calma, profunda, o peito é aberto e o corpo está pulsando, presente. Se não há medo é possível estar em relação íntima com o mundo, consigo mesmo e com o outro. Se não há medo não há recuo, não há duvida, não há descompasso, não há conflito, só há a entrega total ao fluir da vida.
O yoga tem seus meios de trabalhar o medo, e um deles acontece pelos asanas, as posturas. Eles são uma poderosa ferramenta de se abrir profundamente o corpo, de se perceber seus bloqueios, seus recuos, seus medos. Os limites que se encontra aqui não são exclusivamente físicos ou corporais, são também emocionais, mentais.

2 comentários:

  1. Apenas um latido de um cão é o suficiente para uma análise tão profunda de nossos medos. Realmente, quando estou praticando vem sentimentos e emoções muito intensas durante as posturas. O gostoso é quando começamos a perceber e compreender cada sensação. A sutileza dos assanas nos faz perceber a delicadeza da vida e como tudo é tão simples.
    Namastê.

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  2. Perceber é abrir, é o contrário do medo. O que você descobre na prática é você mesma, é auto conhecimento real. Boas práticas
    Namastê

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