8 de jul de 2012

O yoga de Anderson Silva

Ouvi uma parte da declaração do lutador Anderson Silva antes dessa ultima luta (ocorrida em 07/07/12) contra um americano, na qual ele foi o vencedor. Só me lembro dele falar que ia arrebentar o americano, que ia arrancar seus dentes, que ia bater forte, que seu adversário não valia nada, e coisas do tipo. Sei que o americano já havia feito provocações anteriores e que havia um clima tenso no ar. Bem, pode ser que fosse só marketing para promover o evento, ou a briga de rua, ou o campeonato, ou a vingança... não sei, não ficou bem claro. Mas ao ouvi-lo dizer em como estava furioso e queria destruir seu inimigo, me vieram duas imagens que apontam para outros significados sobre o lutar, que a meu ver, parecem mais interessantes e sábios.
A primeira imagem é a história de um samurai que não pôde cumprir a ordem de seu senhor para matar um inimigo, pois este, ao ofendê-lo, o fez sentir raiva. Como um samurai poderia combater se estava envolvido por questões pessoais, se estava possuído pela raiva e queria vingança, se estava ofendido em sua vaidade? Onde estaria sua lucidez? Se lutasse não seria nobre, não seria digno de ser um samurai, aquele que busca a conquista não apenas do adversário externo, mas principalmente do seu mundo interno.
A outra imagem é um pequeno texto de Chuang Tzu, mestre taoísta que já citei em um texto anterior, que descreve como um bom treinador deve preparar um galo de briga. Na verdade ele se refere ao processo gradual de desapego do ego e suas pretensões, e o enorme poder resultante disso.
Essas duas imagens falam do único combate válido que podemos empreender na vida: superar nossas próprias limitações, nossas próprias confusões entre quem somos e quem achamos que somos. As artes marciais são uma prática desse entendimento, não se luta contra o outro, na verdade não se luta contra nada, o único adversário real sempre é um aspecto nosso, os inimigos de fora são quase sempre reflexos de nossas próprias limitações.  Pode ser um grande equívoco buscar socá-los e tentar destrui-los, pois eles não estão e nem morrem fora de nós. Essa é uma experiência que as varias abordagens da filosofa, da psicoterapia e do misticismo propõem incessantemente: conhece-te a ti mesmo! E não é exatamente esse o combate que o yogi deve assumir se deseja encontrar paz verdadeira e duradoura?


O galo de briga”
Chi Hsing Tzu era treinador de galos de briga do Rei Hsuan. Estava treinando uma bela ave e o rei sempre perguntava se a ave estava pronta para brigar. “Ainda não”, dizia o treinador, “ele é fogoso, é pronto para atiçar briga com qualquer ave, é vaidoso e confiante na sua própria força”. Depois de dez dias, respondeu novamente: “ainda não, eriça-se todo quando ouve outra ave grasnar”. Depois de mais dez dias: “ainda não, ainda está com aquele ar irado e eriça as penas”. Depois de dez dias disse o treinador: “agora ele está quase pronto, quando outra ave grasna, seu olho nem mesmo pisca, fica imóvel como um galo de madeira, é um lutador amadurecido, outras aves olharão para ele de relance e fugirão”.
                                                                              Chuang Tzu
                                                                                                                    

4 comentários:

  1. Lindo texto. Tão simples e objetivo,acho mesmo que é assim que se livra das brigas e lutas. Duro é ser treinador de si. Obrigada, desceu tão bem essas palavras...

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  2. Gostei do "ser treinador se si", que por vezes é realmente difícil de se manter, mas que é uma verdadeira fonte de prazer e poder.
    Obrigado e bons treinos.

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  3. AS LUTAS DE GALOS É UM COMPORTAMENTO NATURAL E INSTINTIVO DA AVE QUE FOI SELECIONADA COM OBJETIVO DE LUTAR QUE SEMPRE FOI MANIFESTADO EM SEU COMPORTAMENTO NATURAL PARA DEFENDER TERRITÓRIO, FÊMEAS E ALIMENTOS. O HOMEM AO LONGO DOS SÉCULOS E MILÊNIOS OBSERVANDO ESTE COMPORTAMENTO TROUXE O GALO EM SUA COMPANHIA E ASSIM TORNOU-SE UM GALISTA A PESSOA RESPONSÁVEL POR SELECIONA, CRIAR E PRESERVAR O GALO DE COMBATE. NÃO HÁ NENHUMA AÇÃO DE MAUS TRATOS EM ASSITIR A UM FENÔMENO DE GALINÁCEOS QUE POSSUEM MÚSCULOS E OSSOS PREPARADOS HÁ MILÊNIOS COM ESTA FUNÇÃO PROVADA EM SEU DNA PELA REBISTA DE CIÊNCIAS AVÍCULA ANO DE 2003.

    LINDO O TEXTO DO LIBRO

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    1. Realmente não há problema algum em animais lutarem para defender território ou outras necessidades. Todos animais fazem isso, inclusive o bicho homem. Mas quando olhamos para isso com os olhos da psicologia ou do yoga podemos ver outros aspectos dessa situação. A questão é se alimentamos ou não a agressividade em nós, ou melhor, o que fazemos com a agressividade que há em nós. Obrigado pelo comentário.

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