7 de fev de 2012

Num desses dias de calor

“Nossa que calor!” “Como hoje está quente!” “Meu Deus... que calor!”
Parece que essas frases se tornaram verdadeiros mantras nos últimos dias. Em dias quentes se reclama do calor, em dias frios se reclama do frio, em dias mais ou menos, se reclama da falta do sol, ou de qualquer outra coisa. E assim vai sendo dado um pano para uma manga que não tem fim: o prazer de queixar-se.
É impressionante como o calor fica mais intenso e desconfortável com o tempero de várias e insistentes queixas. Sem nenhuma denúncia, de como a temperatura está insuportável, a sensação certamente é outra. As reclamações têm o poder de gerar inquietação mental, algo fica ali borbulhando, se coçando, querendo sair na forma de uma re-clamação (clamar de novo).
A queixa do calor me lembra uma situação que passei no quartel. Estávamos eu e mais uns 50 soldados, em treinamento de guerra, ou seja, no meio do mato rastejando, carregando mochilas, fuzil e várias tralhas, sem comer e dormir direito, ouvindo os berros dos sargentos, e, imersos naquele clima misto de brincar de soldado e ser homem de verdade. Em uma das “aulas” sobre guerra, ficamos todos sentados no chão de capim dentro de uma barraca super abafada, logo depois do almoço. O calor era desse que tem feito ultimamente. O tenente que ia falar era apenas um pouco mais velho que nós e parecia um garoto meio sem jeito. Ninguém dava muita atenção ao que ele falava, mas nessa situação ele acabou sendo um grande professor. É lógico que estava insuportável ficar ali dentro ouvindo ele falar, pois havia também o calor, coceiras, sono, fome, irritação, dores no corpo, sede, e mais quase tudo que poderia justificar muitas re-clamações. Nesse clima de inquietação e quase desespero geral, ele deu um berro e mandou que ninguém se mexesse mais. Isso implicava em não se cocar, não tirar o suor do rosto, não baixar a cabeça, não bufar e nem se abanar. Pior que isso não dava. Mas então, algo foi acontecendo silenciosamente. Passados alguns minutos de obediência daquela ordem absurda, um novo clima surgiu dentro da barraca infernal. Ela agora não era mais infernal, pelo menos para mim. Suportei, e isso me aquietou. Todos os incômodos continuaram ali, mas com uma intensidade diferente. Não havia mais o desespero, nem nada insuportável. Eu estava quieto percebendo tudo em volta, inclusive a “aula” de guerra se transformou, agora ela era como a coceira, estava ali, mas não me irritava mais. Quando o tenente percebeu que o clima havia mudado, comentou que era isso mesmo que ele queria provocar. Eu sorri satisfeito com o que havia descoberto em mim.
Na época eu lia sobre yoga e fazia algumas práticas, mas não fazia a menor idéia de que esse tenente havia me ensinado muito sobre tapas (auto superação), sobre santosha (contentamento) e sobre meditação (aquietar as oscilações mentais). Na verdade a aula de guerra foi uma prática de yoga. Mas essa lição só foi possível, pois fazia calor e havia muitas queixas. Tal como nesse dias de verão.   

4 comentários:

  1. Muito bom Marcos! Sempre bom lembrar que podemos encontrar a paz interior - Shanti - com as adversidades. A escolha é sempre nossa. Feliz aquele que conhece o caminho da yoga ainda que sem saber que é yoga! Namastê.

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    1. Olá Roseli, concordo com você e arrisco a dizer,
      pobre daquele que só vive o yoga encima da esteira.
      Namastê

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  2. Quando situações ou fatos, sejam acachapantes ou corriqueiros, tomam conta de nossa existência é hora de dominarmos o que nos domina, prender o que nos prende, por o "id" pro lado de fora e fechar a porta, assumir a cabine de controle, a cabine de comando. É hora de aumentarmos de tamanho.

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    1. Acredito que somos grandes quando temos domínio e clareza sobre nossa experiência, mesmo que ela seja diferente do que gostaríamos.
      Abração

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