20 de mai de 2014

A relação como meditação



Neste último fim de semana participei do VI Encontro de Saúde e Longevidade, um retiro focado no vivenciar de formas de cuidados com a saúde. Contribuí orientando três diferentes atividades: uma prática de posturas em pé, uma de exploração da respiração e uma atividade sobre a saúde nas relações humanas. Das três, essa ultima atividade foi a que mais me chamou a atenção, e curiosamente foi a que mais me fez sentir praticando yoga com o grupo.

Saúde, muito além do apenas não estar doente, é um estado de funcionamento pleno, onde um determinado potencial está sendo realizado. Por exemplo, se tenho dor nas costas posso considerar esse um estado doentio, não saudável, mas nem por isso, não ter dor nas costas signifique que eu as tenha saudáveis. Possa tê-las rígidas, porém sem dor, o que talvez me leve, mais cedo ou mais tarde, a tê-las doendo. Saúde é então ter minhas costas flexíveis e disponíveis para tudo o que faço no meu cotidiano, o que é bem capaz que se aproxime do poder mantê-las plenas dentro de sua funcionalidade ao longo do tempo. Isso é muito visível na saúde física, haja visto que praticamente todas as grandes doenças contemporâneas são resultado exatamente do não saber manter a funcionalidade dos sistemas e órgãos. Nem ampliamos e exploramos o potencial e nem também, ou simplesmente, deixamos seguir seus caminhos, nós o atrapalhamos continuamente. Ou será que tantos corações entupidos é algo aleatório?

E por falar em coração, a mesma ideia de saúde do corpo pode ser aplicável nas coisas do que não é tão físico e visível assim. Como seria a doença das relações, daquilo que acontece com as pessoas quando elas estão entre e com pessoas? Uma relação doentia seria aquela que dói constantemente ou que tem crises agudas frequentemente. Essa doença se manifesta de muitas formas e em todas traz sofrimento. Mas não ter dor em um relacionamento de longe significa que essa relação seja saudável. Há coisa mais doente que estar preso em uma relação de indiferença? De solidão compartilhada? Há coisa mais doente, e frequente, do que a conversa onde um não escuta o outro? Não há brigas, não há conflitos, não há gritos e lágrimas, talvez só mesmo um manso e invisível sofrimento. Reina aqui apenas a desconexão. Uma verdadeira não-relação na relação. 

Mas o que mantém essa situação? Em muitos casos um simples e enraizado hábito de não dar atenção. Só isso. De frente ao outro onde está minha atenção? No outro ou em mim mesmo? No que o outro diz ou no que meus pensamentos dizem? Estou disponível para escutar o que o outro diz ou ouço apenas o que penso? Consigo esperar seu tempo? Consigo não concluir por ele? Consigo não antecipar? Consigo ser continente? Consigo manter o foco de atenção em nosso encontro apenas? Olhar para esses detalhes do bastidor de um encontro são reveladores sobre como conduzimos nossa atenção. Geralmente desatenção.

Surpreendente é que esse reconhecimento da desatenção é justamente o exercício da meditação e do yoga. Nesses caminhos o que se busca é sair da inconsciência da desatenção, revelando-a assim que ela se der, para assim trazer e manter a atenção na experiência imediata. Experiência essa que pode muito bem ser a de estar de fato e inteiramente com alguém. Direcionar a atenção para o estar em contato com o outro, ou em outras palavras, ter a relação como meditação ou meditar na relação, foi exatamente essa a proposta que fiz para o grupo naquela agradável e acolhedora noite de sábado.

E como seria uma relação saudável? Isso é algo difícil de dizer, até pela amplitude, imprevisibilidade, profundidade e particulares significados que ela pode tomar, mas presumo que seja essencialmente uma relação onde haja atenção. Atenção, que nesse caso é uma expressão de consideração, carinho, presença e amor. 

                                                                 

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