26 de mai de 2013

Entrando e saindo de uma fria



Em dias mais frios me sinto melhor, mais disposto, e tenho a oportunidade de desfrutar melhor dos fantásticos efeitos do banho frio. Mas banho frio no inverno? Como assim? Bem, é isso mesmo, primeiro um banho quente e depois uma ducha final com o chuveiro desligado. O impacto do contraste das temperaturas faz milagres na fisiologia e traz um grande prazer. Só experimentando para saber. Apesar das muitas reticências que surgem imediatamente ao pensar nessa proposta, juro de pé junto que o banho frio vale muito à pena.

Recentemente acrescentou-se um algo a mais na minha experiência de banho frio, algo até mais valioso que o grande bem estar que ele sempre me trouxe. Há uns dias atrás, assim que desliguei o chuveiro e a água começou a esfriar, me percebi resistindo a ela, como se eu estivesse fugindo dela, apesar de estar ali por vontade própria. Parecia que eu estava recuando para dentro da pele, me afastando assim da água fria. Perceber isso foi interessante, pois me vi dividido em dois, um Marcos querendo o banho frio e outro Marcos se recusando a ele. Um lado não estava entregue, não estava de fato ali na experiência de sentir a água fria, talvez quisesse continuar com a água quente, ou talvez, nem quisesse ter saindo da cama tão cedo, não sei. Mas sei que ter percebido essa divisão me fez entrar de corpo e alma no banho frio, não mais resisti, deixei a água molhar e gelar a pele e a alma não foi para outro lugar, ficou ali mesmo.

Talvez a água gelada tenha intensificado a minha divisão interna, mas ela já me é familiar, não há nenhuma novidade nela. Estar em uma experiência e não estar presente, estar num local querendo estar em outro, fazer algo pensando em outra coisa, percebo isso acontecendo em mim muitas vezes durante o dia, às vezes de forma sutil e praticamente imperceptível. Antecipar ou relembrar pelo pensamento são forma de sairmos da experiência imediata e entrarmos num mundo paralelo ao aqui e agora. Meu corpo está em uma situação, mas o meu mundo interno, aquilo que considero como meu “eu”, está em outra situação, e muitas vezes totalmente desvinculada da experiência sensível do corpo naquele momento. Isso não é esquizofrenia, a conhecida e grave psicopatologia, mas possui a mesma dinâmica interna, a de se estar dividido e dissociado. Por sinal, o termo esquizo significa cisão, partido, assim como o estar conversando com alguém e na verdade estar mesmo é pensando no que fará quando se despedir dessa pessoa.

Perceber a minha resistência à água gelada me abriu para a experiência real da água fria, e é exatamente essa a proposta de muitas formas de meditação, abrir-se para a experiência real, direta, imediata, saindo da condição esquizo. Nada além, nada aquém, nada em outro lugar ou outro tempo. Tão simples e tão coerente, já que a vida só acontece aqui e agora no exato pulsar da experiência. E a nós cabe apenas escolher entre estarmos abertos ou fechados à isso.

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