3 de jul de 2012

Um grande desperdício


A prática de yoga produz uma infinidade de efeitos positivos em vários níveis, e isso é perceptível já na primeira aula. Mas com o tempo, podemos nos acostumar com esses efeitos e eles passam então despercebidos, embora continuem a ocorrer. Esse pequeno detalhe faz bastante diferença, nós precisamos perceber para poder reconhecer. Se não há a percepção não haverá o reconhecimento e a incorporação de algo vivenciado. A experiência precisa passar pela consciência de alguma maneira, ainda mais no yoga.
No final de algumas práticas percebo o quanto o grupo se modificou do inicio da aula. Diferentemente do inicio da aula, no final paira um evidente silêncio na sala, as expressões estão serenas, as posturas quietas e aflora uma sensação de que tudo está bem, exatamente como está. Mas esse clima não foi gratuito, foi resultado do empenho, do esforço, da dedicação, da superação e da entrega de todos os membros do grupo. Houve uma conquista, das mais valiosas que se possa ter. Mas diante desse fruto tão valioso vejo frequentemente ocorrer um verdadeiro desperdício. Talvez por não reconhecerem que estão de posse de algo precioso e sutil, os alunos rapidamente dissolvem o que conquistaram em mais de uma hora de prática. Logo o falatório volta, o dia a dia e o mundo lá fora preenchem novamente a sala, e em poucos minutos, ou segundos, a mente volta com suas habituais agitações e distrações. Não que eu ache que isso é errado, e que devemos viver isolados do mundo, mas o que percebo é que o esforço e o conquistado não foram percebidos, reconhecidos e valorizados. É como se cada um tivesse se empenhado muito em encher uma grande bacia com água fresca em pleno deserto, e displicentemente, derrubasse toda essa agua no chão. Uma conquista que não foi reconhecida é perdida rapidamente, é trocada facilmente pela primeira distração que aparecer. Desperdício.  
Ás vezes proponho o seguinte após aula: que saíamos todos em silêncio, que levemos para casa, ou para fora da sala, a bacia cheia, repleta do que temos de melhor. Que valorizemos aquilo que conquistamos e nos faz tão bem, e que isso se espalhe por onde quer que formos, tal como um suave perfume. Mas isso parece que toca em uma outra questão: nem sempre suportamos o nosso melhor, nem sempre suportamos o simplesmente estar bem.

2 comentários:

  1. Marcos, eh verdade, também sinto que depois das aulas e silencio poderia ficar presente mais um tempo, mas parece que todos temos pressa para chegar a algum lugar.... Isso não é contraditório, como o silencio pode ser tão bom e ao mesmos tempos nos incomodar tanto que logo queremos acabar com ele.... ??? Carla

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    1. Muito bom o seu questionamento Carla. Arrisco a dizer que não estamos acostumados a ficar em silêncio, e mais do que isso, acho não nos sentimos muito à vontade no silêncio, pois parece que nele perdemos aqueles movimentos que nos fazem sentir que somos nós mesmos. No silêncio nossa identidade é outra, não precisamos das identificações que carregamos todos os dias em todos os lugares. Não precisamos estar preenchendo espaços, em silêncio o mundo e as relaçoes são outros, uma dimensão onde estamos diretamente em contato com nossa intimidade. Talvez isso gere um certo desconforto inicialmente.
      Um abraço (em silêncio)

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