6 de jun de 2012

A vida plena na postura do cadáver


Toda prática de Iyengar Yoga é fechada com uma postura especial, o shavasana.  Na aula fazemos mantra e pranayamas, e principalmente, fazemos muitos asanas (posturas). Cada um deles é feito, refeito, estudado, percebido, incorporado e nos leva mais para dentro do corpo físico. Essa forma de praticar é exigente, profunda e rica em efeitos físicos, emocionais e mentais, mesmo que não se tenha muita consciência disso. Todo esse trabalho nos revira por dentro, fazendo uma verdadeira faxina e reorganizando vários aspectos do nosso ser. Praticar asanas é um exercício da vontade, da determinação, do esforço, de superação. Mas a prática não fica completa sem a atitude oposta da que se tem com os asanas: a entrega.

Após muitos asanas, o asana final é sempre o shavasana. Nesta postura ficamos deitados e totalmente imóveis por alguns minutos. Nada a fazer, apenas se entregar ao chão e aquietar o corpo. Shava em sânscrito significa cadáver, e esta é a postura do morto. Nome nada agradável para quem quer saúde, vitalidade, força, consciência, para quem quer se sentir bem praticando yoga. Mas essa é a sequencia do fluxo da vida, fazemos muitas coisas com empenho e vontade, crescemos e lutamos, conquistamos o mundo, e depois, inevitavelmente, morremos. No final só há a entrega total, o rio sempre volta ao mar. Isso pode parecer negativo, deprimente, triste, mas há aqui algo extremamente libertador.

Em toda prática de yoga “treinamos” o morrer. Em toda prática de yoga reproduzimos o fluxo da vida com nascimento, desenvolvimento e morte. Vivemos isso todos os dias, em todos os momentos, só que nos protegemos na perspectiva do tempo, quando pensamos que um dia, lá na frente, e só , isso chegará até nós. Na prática de yoga o shavasana é mais do que uma recompensa, é mais do que o merecido descanso, é o momento de assimilação de tudo o que foi feito, é o momento de mergulhar em si mesmo, é o momento de se recolher. O shavasana permite a entrega do corpo e da vontade, o abandono de qualquer pretensão, de qualquer ação. E isso é profundamente gratificante e repleto de sentido. O shavasana coroa todos os outros asanas, possibilitando a dissolução do que achamos que é o nosso eu. Na postura do cadáver temos por alguns instantes a experiência de não ser ninguém, de simplesmente estarmos ali existindo, além do saber sobre quem somos.

3 comentários:

  1. Tascheto,
    embora o tenha procurado na Internet, só agora, através do FB, conheci o seu Site, li algumas postagens e não deixarei de o acompanhar. Gostei. Há uns vinte anos conheci o budismo e a sua filosogia, a pátrica tântrica, os mudras e os yandras. Ainda uso destes conhecimentos. Logo em seguida conheci a Pró-Vida, uma escola do sentir, da expansão da consciência e do desenvolvimento mental. Enfim, seus textos fazem razão para mim. Um grande abraço.
    Toffanetto

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    1. Toffanetto, fico feliz de saber que, além da poesia, temos também o gosto em comum pelo budismo e pela busca da consciência.
      Grande abraço

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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