19 de jan de 2015

Além das selfies



Faz quase três meses que não posto nada. Nesses quase quatro anos do blog nunca fiquei tanto tempo assim sem escrever. No início eram duas vezes por semana, frequência que foi passando depois para uma por semana e que acabou ficando em uma ou duas por mês. Escrever para o blog é um exercício interessante, pois me abre para experiências que, sem a tarefa de escrever, certamente me passariam despercebidas. Ser capaz de olhar um pouco mais de perto, com um pouco mais de atenção, de abertura e de curiosidade, tudo isso ajuda bastante para escrever. Valioso é que essa atitude é válida tanto para o olhar para fora, o que esta acontecendo em torno, assim como o para dentro, para aquilo que se movimenta em mim.  

Nesses três meses tive vontade de escrever, mas não consegui, ou por falta de tempo, ou por ficar ali mastigando e não sair nada que me empolgasse. Parece haver um tempo ideal, e que deve ser respeitado, entre a experiência, a elaboração e o escrever. Ter essa tarefa de escrever regularmente para o blog me coloca em maior atenção, me põem a cuidar melhor do exercício da comunicação através da escrita e do poder organizar um pensamento e uma ideia, mas também acaba alimentando uma outra poderosa e curiosa atitude mental como efeito colateral.

Em um dos passeios do começo de ano estava em uma bela cachoeira que caía por majestosas e enormes rochas negras. Haviam várias pessoas por lá e depois de achar um canto para ficar observei que praticamente todos tiravam fotos. Claro que essas fotos não eram da cachoeira, mas sim selfies. Observei a mesma coisa em outras situações (bem, e quem não observa isso em qualquer lugar?). Diante da energia radiante da cachoeira e da dedicação aos selfies fiquei com a impressão de que o registro era mais importante que a experiência, de que a foto na cachoeira era mais verdadeira que o banho nela. Cito essa passagem da cachoeira por achá-la muito parecida com o que acaba acontecendo comigo no exercício de escrever para o blog.

Diante da experiência uma parte minha fica de fora, uma parte mental, observadora, analítica, racional. Essa parte está ali para registrar e entender o que está acontecendo, para fazer relações entre conceitos e fatos e preservar a minha pessoa como o “quem” está vivendo aquilo. Vou ao dentista e enquanto ele faz um procedimento percebo a sutileza, a força e a sensibilidade dos dentes e da gengiva. Essa percepção produz uma clareza sobre o meu corpo e outras questões. Pronto, já é o bastante para disparar o flash de mais uma selfie, ou de mais um texto, que pode ser postado e que pode ser mostrado e curtido e... bem, assim a experiência acaba fica num segundo plano, sendo ofuscada pela necessidade de registrar e analisar.

Esses três meses sem escrever balançaram, para minha leveza, essa minha necessidade de registrar e criar um texto. A experiência direta é primordial, e dela pode ou não vir uma clareza, um entendimento, um texto, ou mesmo uma foto, que podem ou não fazer sentido quando compartilhados.


Um ano novo com mais experiências e menos selfies para todos nós!

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