18 de set de 2014

Um minuto da sua atenção


Encontrando a Meditação: praticando a atenção

Eu e mais oito pessoas passamos a manhã toda deste ultimo sábado nos dedicando há apenas uma coisa: prestar atenção. Foi o primeiro módulo do Encontrando a Meditação, um workshop com o objetivo de viabilizar e facilitar a meditação. Além de explorar alguns pontos mais conceituais, fizemos também diferentes e simples exercícios de atenção. Nada mais do que dar atenção, por um período de tempo, para apenas um ponto por vez. Uma tarefa simples, absurdamente simples, mas que pode ser bastante reveladora e exigente.

Após cada prática eu perguntava para o grupo como tinha sido a experiência de prestar atenção. A ideia era de explorar as sensações e percepções mais sutis e das quais não temos consciência no dia a dia. Num primeiro momento nada de muito significativo, mas ao se dar um pouco mais de atenção a essa experiência, novas percepções acabam surgindo e abrindo, assim, novas portas em nossa forma de ver e entender o mundo.

Fazer essa pergunta (como foi a sua experiência?) me remeteu a muitos momentos dos atendimento psicoterápicos. Muitas foram as vezes que fiz, e imagino que continuarei a fazer, essa mesma pergunta durante uma sessão. Após o paciente narrar uma cena ou uma situação que viveu, ou então no exato momento em que ele está visivelmente emocionado ou incomodado, a pergunta "como você se sente?" ou "como foi isso para você?" é quase sempre reveladora, independente da resposta. Não foram poucas as vezes que o paciente (isso é mais comum com homens) me olha com uma cara de “como assim?” e me responde um lacônico “ué, normal!”. Um normal que parece dizer que ali nada aconteceu ou acontece, que nada há naquela experiência que valha a pena ser olhado. Normal, nada de mais, nada digno de nota, podemos agora olhar para outra coisa, pois aqui não tem nada de interessante. Bem, é lógico que, quando prestamos mais atenção para onde se diz que há apenas algo normal, encontramos ali coisas bastante significativas. Sentimentos, por vezes intensos, estão ali mesmo, bem abaixo do normal, do nada de mais. Sentimentos que quando reconhecidos, quando atendidos pela atenção, produzem um efeito parecido com a volta das chuva depois da estiagem. Mas essa porta só se abre com a chave da atenção cuidadosa.

Dar atenção é algo muito poderoso. A atenção tem a capacidade de gerar transformações por si mesma, pelo que revela, pelo que cria de acesso. Qualquer cantinho de jardim parece banal e sem graça alguma, mas basta um pouco de atenção e lá mesmo começamos a ver a vida presente em muitas e curiosas formas. Aquele cantinho tem um dinâmica própria e envolve vários seres vivos. Sem a atenção nossa relação com ele poderá se resumir em simplesmente ignorá-lo e, como consequência, em algum momento, pisá-lo. Com a atenção podemos incluir aquele pequeno e diferente universo em nosso mundo. A atenção permite a relação.

Mais do que técnicas e conhecimento, precisamos de atenção, até mesmo para poder usufruir dessas conquistas. Muito mais do que mais e mais coisas (seja o que for) precisamos mesmo é de atenção. 

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