27 de ago de 2014

Um senhor yogue



No ultimo dia 20 de agosto, aos 95 anos, faleceu o mestre yogue B.K.S. Iyengar. Sua história e sua obra são fundamentais para se entender como o Yoga moderno se configurou. Ele foi um daqueles raros seres que trouxeram contribuições fundamentais e permanentes para a sua área, contribuições que permitiram que ela se expandisse e transbordasse para outras áreas. O entendimento sobre a prática de asanas (posturas) não é mais o mesmo depois de seus ensinamentos, a amplitude e a profundidade com que trabalhou o corpo e as posturas permitiu, e continuará permitindo, uma infinidade de desdobramentos com grande abrangência. Adotou como meta tornar plenamente realizável a expressão “o Yoga é para todos”.

Minha história com ele foi breve e à distância. Em 2008 percebi que minha prática, e principalmente a minha atuação como professor, estavam limitadas. Muitos alunos tinham dores ou restrições maiores para algumas, ou várias, posturas, poucos eram aqueles com a disponibilidade que eu achava ser a ideal para a prática, ou seja, muita flexibilidade, força, equilíbrio, atenção e comprometimento. Nem eu me encaixava nesse patamar (ainda bem, entendo hoje). Diante disso comecei a procurar alternativas, pois me assustou um pouco a possibilidade de que alguns alunos poderiam se machucar nas aulas, e também era frustrante saber que eu não podia fazer nada, por exemplo, para quem sentia dores nas costas ao ficar sentado no chão com as pernas cruzadas. Nessa busca acabei achando o Sandro Bosco e seu curso de formação de professores pelo método Iyengar.

O contato inicial com a forma Iyengar de praticar Yoga não foi fácil. A começar pelo prazer que tinha em fazer os asanas em sequências fluidas e sem nenhuma preocupação com alinhamentos e sem o uso de acessórios. Lembro-me de uma aula em que estávamos enfiados dentro de uma cadeira com a cabeça no chão e com cinto nas pernas em que me perguntei seriamente o que eu estava fazendo ali. Só não me levantei e saí da aula por falta de coragem. Mas ao começar a entender o motivo daquele monte de acessórios e daquelas infinitas correções uma luz foi-se ascendendo na minha prática e nas minhas aulas. Iyengar propôs algo tão simples e tão fundamental, que passa a ser óbvio depois que é percebido. Independente de se ser um professor credenciado ou filiado ao método, a luz da proposta Iyengar é valiosa e pertinente a qualquer um.

Compreendido melhor o método muita coisa ficou mais fácil e prazerosa, mas faltava ainda algo muito importante, pois eu não tinha nenhuma simpatia pela pessoa do Sr. Iyengar. Nunca estive com ele, mas minha impressão não era favorável e isso criava uma barreira entre mim e ele, o que claramente amarrava o desenvolvimento e aprofundamento da prática. Percebido esse impasse resolvi procurar uma forma de me aproximar dele, e isso acabou acontecendo de um jeito espontâneo e surpreendente. Procurava uma foto dele para colocar no blog e entre elas uma me chamou a atenção, uma onde sua marcante expressão facial parecia mais amena. Imprimi-a e deixe-a em um local visível para mim, em poucos dias minha relação com ele foi se modificando. Aquele senhor, antes carrancudo e fechado para mim, era agora alguém gentil, atento e cuidadoso.

Esse novo jeito de me relacionar com ele permitiu-me ter contato com um aspecto muito presente em sua história, sua personalidade e seu método: a força da vontade, do empenho, da determinação e da persistência. Passei então a admirá-lo por esse feito, por ele ensinar exatamente o poder do construir-se gradualmente, do ir abrindo caminho onde antes nada havia. Ele mesmo diz que só não morreu ainda adolescente justamente pela prática teimosa que manteve na juventude e que perdurou por toda a vida.

Considero o Sr. Iyengar como a própria personificação do hatha yogin, ou seja, aquele praticante que segue o caminho do Yoga pela via da força de vontade, da disciplina e da auto superação. Sua vida e obra foram o testemunho disso.


Vida longa aos seus ensinamentos e que eles possam chegar a ainda mais cantos do planeta. Gratidão Guruji!

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