30 de abr de 2014

A psicologia respira pouco


Dentro do vasto repertório de práticas do Yoga algumas se destacam pela simplicidade, profundidade e amplidão, e entre essas temos o pranayama. Pranayama significa domínio ou expansão da energia vital (prana), o que é realizado através de exercícios respiratórios. Apesar de feitos utilizando-se da respiração, os pranayamas vão muito além do ato de respirar, e mergulham fundo no reino das emoções e dos pensamentos. Há séculos os mestres yogues já sabiam da íntima relação entre os movimentos da respiração, do sentir e do pensar. Esses três aspectos funcionam tal como uma rede de três pontas, que, quando puxada por uma extremidade, acaba trazendo junto sempre as outras duas.

O que pensamos toca no que sentimos. O que sentimos toca no que pensamos. O que sentimos e pensamos toca na forma que respiramos. O como respiramos toca no que sentimos e pensamos. Essas íntimas relações se tornam evidentes para qualquer um que dê a esse processo um mínimo de atenção. Relações que expressam algumas estruturas do nosso mundo subjetivo, todo ele interconectado e dinâmico. O yoga utiliza-se da respiração como uma porta de acesso ao mundo subjetivo, não para apenas explorá-lo, mas principalmente, para transformá-lo.

Respirar é essencial e urgente, sempre. Ao entrarmos neste mundo quando nascemos, nosso primeiro gesto é, num ato de afirmação e independência, uma inspiração: “Eu sou! Aqui estou!”. Ao sairmos deste mundo, expressamos a mais absoluta entrega por uma expiração derradeira: “Sim...      ”. O espaço de tempo entre esses dois pontos extremos são preenchidos por milhões de respirações, com muitas variações de qualidade e ritmo, acompanhando e colorindo a grande possibilidade de experiências que um ser humano pode ter no decorrer da vida. Mas há um pequeno e significativo detalhe nisso: quase que a totalidade dessas respirações serão feitas inconscientemente. 

Essa é uma qualidade única da respiração, a de poder ocorrer na forma automática e inconsciente e/ou na forma intencional e consciente. Algo mais ou menos assim: como se ela não precisasse de nós para existir, mas se estivermos lá, tudo bem, ela nos deixa participar. E é esse justamente o gancho que o Yoga aproveita, ampliar e aprofundar uma função vital que se relaciona direta e intimamente com o mundo subjetivo. 

Diante desses fatos, é inevitável se perguntar como a psicologia conseguiu até hoje ainda não ter se voltado e dedicado para a respiração? Tirando o trabalho de Stanislav Grof e sua Respiração Holotrópica, que baseia-se em um pranayama, e das considerações de Wilhelm Reich e de seus seguidores sobre o corpo, suas funções e o psiquismo, quase nada há na psicologia sobre as relações entre respiração e mundo subjetivo. 

Inspirações e novos ares são bem vindos!    

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