5 de mar de 2014

Seguindo o bloco



Passei boa parte do carnaval em uma praia onde toda tarde saía um animado bloquinho. De microfone o puxador chamava quem estava na praia e aos poucos o grupo atrás do bloco ia aumentando. Entre uma marchinha e outra ele repetia: “aqui só tem alegria!”. E realmente o bloco estava divertido, sem nenhuma pretensão há não ser a de brincar, pois diferentemente de um desfile, onde se é plateia, ali todos participavam livremente. Imagino que quem estava ali não queria outra coisa que não a alegria, e pensando bem, quem não quer estar sempre atrás do bloco da alegria?

Mas por quanto tempo é possível seguir o bloco da alegria? Talvez bem menos tempo que o próprio período de carnaval. Na verdade é impossível alguém seguir apenas o bloco da alegria. Fomos feitos para seguirmos muitos blocos. Quando menos esperamos, estamos seguindo o bloco da tristeza. No próximo momento já estamos atrás do bloco da conquista, para no momento seguinte, estarmos atrás do bloco da perda. Os blocos vão se sucedendo, se alternando, cada qual com sua marchinha característica. Diante desse grande, inevitável e interminável carnaval é possível fazer alguma coisa? Ou só nos resta seguir o 
bloco que nos chamar?

Os entendimentos sobre a nossa condição de seguir blocos variam muito e aqui vou citar três deles, tentando resumir os olhares do dias atuais, da psicologia e do yoga.

Alguns entendem que devemos seguir, sempre e unicamente, o bloco da alegria. Para manter-se nesse bloco basta querer, mas ter pensamento positivo, boas intenções e um pouco de mágica ajudam bem. A marchinha desse bloco é insistente no refrão de apenas ficarmos na alegria, sem baixo astral, sem dúvida, sem medo, sem nada mais. Aqui a festa é proibida de terminar.

Porém há alguns que entendem que o humano maduro é aquele que aceita a troca de blocos e se responsabiliza por elas. A vida é complexa, cheia de escolhas e de incertezas, sendo assim impossível um bloco definitivo. Se blocos vêm e vão, cabe a nós nos posicionarmos diante deles. Ser sujeito é ser e estar em muitos blocos.

E, por fim, há aqueles que entendem que o humano lúcido sabe da condição de impermanência de qualquer bloco. Nenhum deles possui consistência duradoura e todos, sem exceção, findarão, e em nenhum deles haverá satisfação plena, nem no bloco da alegria. Enxergar e aceitar a alternância e a impermanência dos blocos é o suporte para desapegar-se deles. Desapego não é negação ou rejeição, é o estar no bloco, mas não ser do bloco. A alternância de blocos expressa a própria essência da natureza, que é a diversidade em eterna impermanência. Se blocos vêm e vão, algo permanece sem ir ou vir, algo permanece como Testemunha. Ser Testemunha é passar por muitos blocos e saber que não se é nenhum deles.

Dos três entendimentos sobre o seguir blocos, o único realmente impossível é o primeiro.   



2 comentários:

  1. Oi Marcão, sabe que este seu texto que li hoje caiu como uma luva para mim, pois ajudou a entender que não adianta querer estar sempre feliz, pois assim como os outros sentimentos eles são temporários, e temos que entende-los e acima de tudo respeitar o tempo de cada bloco... Enfim... Ter paciência e respeitar a si mesmo. Obrigado pelo post.

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    1. Grato pelo comentário tão lúcido e carinhoso. Abração primo!

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