3 de nov de 2013

Sucrilhos e o nosso adorado stress


Só quando já estava separando o lixo para reciclar é que percebi, na parte de trás da embalagem, essa, vamos dizer, inocente mensagem do “Sucrilhos” para seus consumidores, ou seja, as crianças, o que inclui minha filha. E fiquei ali sentado um bom tempo, digerindo tanta garra e energia. Observe:


Tive a sensação de estar lendo um manual desses treinamentos para melhorar o desempenho, para atingir metas, para superar todo e qualquer obstáculo, para ser sempre motivado e chegar lá. Chegar lá sabe deus como e lá sabe deus onde, mas esses pontos nunca fazem parte do programa. Esses treinamentos, palestras e livros que tem como lema “Retroceder nunca, render-se jamais” ou “Seja feliz em tudo, sempre” ou "10 passos para ser o melhor".

Mas tudo isso não era coisa para adultos? Assunto restrito para aqueles que já sabem que não podem perder tempo, que sabem que só sendo o melhor é que se é alguém? Mas pensando bem, porque as crianças deveriam ficar de fora dessa empreitada? Porque priva-las desse privilégio? Como ficariam elas no futuro mercado de trabalho? Como conseguiriam ser alguém na vida? Realmente, elas precisam de doses de “Sucrilhos” para ter energia e garra e também de lições divertidas de como viver bem nesse nosso mundo motivado e repleto de sucesso.

Ironias e questões ideológicas à parte, fato é que nós reclamamos de falta de tempo, de falta de qualidade de vida, de falta de saúde, de falta de tranquilidade, da falta de vida. Mas também é fato que, cultivamos fervorosamente valores e ações que nos afastam eficazmente disso que dizemos sentir falta. A vida que levamos é que nos impede de ter aquilo que sentimos falta. E aquilo que cultivarmos, nossos filhos também cultivarão, e nesse sentido, essa absurda mensagem do “Sucrilhos” é politicamente correta e justificada, pois nossas crianças não podem perder tempo brincando, inutilmente, desperdiçando assim oportunidades de se superar e se prepararem para ..., bem, esse discurso todos nós conhecemos.

Quando trocamos o prazer de brincar, explorar e curtir (seja futebol, natação, basquete, karatê, ginástica, corrida, andar de bicicleta, estudo, trabalho, ou qualquer outra atividade, inclusive yoga e meditação) pela sensação/obrigação de ter que ter mais garra, de superar o recorde, de fazer o mais difícil, de evoluir logo, de ter mais pontos, mais velocidade, de ganhar e ganhar, de ter sempre o troféu nas mãos, quando fazemos essa troca, entramos em uma armadilha simples e poderosa. Enaltecemos o eu, dando-lhe muito valor, investindo assim muita, e valiosa, energia no lugar errado.  O resultado disso não pode ser outro que não a terrível tensão de ter de sustentar esse eu lá em cima, sempre. Quanto mais eu, mais tensão, mais stress, mais bens em jogo, mais riscos de perda.

Vivemos um tempo onde correr atrás de “Sucrilhos” é quase um ato religioso, uma liturgia para o sucesso e uma contínua afirmação de mais e mais eu. Para um tempo como esse nada mais subversivo do que brincar, ou meditar, ou simplesmente tirar o eu do primeiro plano. E não há outro objetivo do yoga.


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