17 de out de 2013

Eu estava lá!


Durante muitos anos, sempre que estava na a praia, dava um jeito de ir caminhar pelas pedras. Gostava de fazer isso sozinho, escalando e me movimentando pelas pedras sem pressa e sem saber até onde conseguiria ir. Escolhia um lugar onde pudesse sentar-me confortavelmente e ali ficava por um bom tempo. Quase sempre fazia alguma prática e depois deixavas as coisas acontecerem.

Certa vez estava sentado de frente para o mar aberto, mar verde, no céu azul só o sol e algumas aves. Em volta de mim pedras, quentes, árvores e uma sombra acolhedora. Lá longe, na minha frente, a linha do horizonte e bem perto, ondas quebrando com estrondo e espuma, indo e vindo, e muitas pedras, grandes, imóveis, resistentes. Eu só observava tudo isso ao meu redor, tudo acontecia por si só, eu estando ali ou não, eu querendo ou não. Perceber isso era bom, me deixava mais quieto. E assim continuei ali, deixando as coisas acontecerem e olhando para o mar. E então, na linha do meu olhar, uma arraia salta. Preta e branca, grande, num voo rápido totalmente fora da água... já foi! Depois de seu mergulho até tentei prever onde ela poderia saltar novamente, mas no vasto mar, sem chance. Na verdade, o possível segundo salto já não tinha importância frente à experiência impactante do primeiro.

Depois pensei: “puxa, que sorte a minha estar olhando naquela hora justamente para onde ela saltou!”. Mas o que senti mesmo, e sinto até hoje, é que não foi sorte, nem acaso, nem coincidência, nem sincronicidade, nem nada especial. Sinto um quase prazer de constatar que “eu estava lá!”. Só isso. Estava lá, presente, e por isso pude ser testemunha, não apenas do inusitado salto, mas de todo o resto, comum e maravilhoso, que acontecia do meu lado, na minha frente, encima, atrás e dentro de mim. Naquele momento eu estava lá e não em outro lugar. Não estava pensando em outras coisas, digamos, mais importantes, não estava mergulhado e refém do meu mundo interno.


Lembrar essa experiência acaba me trazendo uma pergunta um pouco incômoda: e nesses dezoito ou vinte anos que se passaram depois do salto da arraia, em quantos momentos posso dizer que “estava lá”? Onde estava nesse percurso? 

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