7 de abr. de 2013

Para além do certo


Nesses últimos dias estou com o refrão de uma música, da qual não me lembro o nome, dos Titãs na cabeça: “só quero saber do que pode dar certo”. Na verdade nunca gostei muito dela e até achava esse refrão um pouco exagerado, essa coisa de tudo dar certo e de não poder esperar (“não tenho tempo a perder”). Mas é exatamente esse refrão que escolhi, de alguma forma, para ser o meu mantra desses últimos dias, e a repetição dele me fez perceber e olhar para algumas coisas.

O que é dar certo? Quase sempre dizemos que algo deu certo quanto correspondeu, totalmente ou em grande parte, às nossas expectativas. Se planejo um final de semana na praia, talvez espere que faça sol e calor, que o mar esteja delicioso, que a praia não esteja lotada, etc. Ao ter um projeto na mente, já tenho uma expectativa, já tenho uma referência do que é dar certo e do que é dar errado. O meu plano, inevitavelmente, indica qual a direção que as coisas devem seguir para que ao final eu fique satisfeito. Satisfeito porque tudo deu certo, porque não houve espaço entre o que eu quis e o que de fato aconteceu. Dar certo é uma confirmação de nossa onipotência, e até dizemos que querer é poder.

É óbvio que o dar certo conforme nossos planos é fundamental em vários aspectos da nossa vida cotidiana. Como é bom quando o almoço sai como o esperado, na hora esperada. Como é bom poder planejar e cumprir metas relacionadas a dinheiro, a cursos, a viagens, a compras, e a várias outras mudanças. Planos trazem organização, perspectiva, direção. Porém, e sempre há um porém, a vida não se sujeita aos nossos planos. Não são eles que decidem uma infinidade absurda de eventos que nos rodeiam. Nossos planos são apenas um aspecto do que chamamos realidade, um aspecto de nossa inteira responsabilidade e que trás em si uma poderosa armadilha, a armadilha do apego.

Ter um plano é ter uma receita do que e do como algo deve acontecer. Ao me apegar a essa receita, e ao que considero o certo dela, posso não ter abertura o suficiente para descobrir que ela é só uma indicação, um caminho dentre muitos outros. Posso me fechar a outros “certos”, a outros caminhos, posso me fechar a surpresas, posso me privar do espanto, do encontro com o inesperado. O apego nos priva da revigorante renovação que o novo pode trazer para nossas vidas e é um gancho certeiro para o sofrimento. Quanto maior o apego, maior a expectativa, maior o investimento, maior a fragilidade e intensidade da perda e de sofrimento.

Não faz o menor sentido deixar de ter planos, a questão é o apego ao que achamos certo em relação a eles. Se só quero saber do que pode dar certo, que possa estar aberto aos muitos possíveis certos, que possa me desapegar. Se não tenho tempo a perder, que possa estar no presente, onde nunca há perda de tempo, onde sempre posso reavaliar planos e receitas e onde tudo pode dar certo.
É possível se apegar a uma nuven?

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