5 de mar de 2013

Sustentando o não-saber



     Certa vez, em uma aula de um curso de formação, recebi algumas perguntas a respeito de um texto que falava sobre chakras. Como eu já tinha alguma noção sobre o assunto, fui respondendo mentalmente a cada pergunta, antes mesmo de ler o texto. Mas em determinada pergunta, que não me lembro mais qual era, fui surpreendido com a certeza absoluta de que eu não sabia nada sobre aquilo que acabava de responder. Minha resposta era apenas mental e não valia nada, era só um punhado de informações costuradas com deduções e associações que fui fazendo através de várias leituras. O que sabia eu realmente sobre chakras? Nada, apenas especulações que no fundo não faziam sentido algum para mim. Esta constatação foi inquestionável, o golpe foi certeiro e me deixou totalmente rendido em minha ignorância. Uma santa ignorância que me trouxe grande tranqüilidade e relaxamento, que me alinhou com o caminho do não-saber.

      Por que tinha eu que saber sobre chakras? Porque eles estão nas escrituras do Hatha-Yoga, porque vários livros falam deles, porque tudo mundo sabe um pouco sobre eles, porque um professor de Yoga precisa saber sobre eles..., bem, vários são os motivos que justificavam o fato de que eu deveria saber algo sobre chakras. Porém, esses motivos acabaram formando uma boa quantidade de entulho em minha clareza. Ter informações não é o mesmo que saber. Saber é ter o sabor. Só posso realizar o sabor, ter o gosto, através da experiência direta, momento em que conceitos e idéias podem facilmente poluir e distorcer a degustação da experiência direta do momento. 

         Eu tinha que saber e me descobri não sabendo. Que liberdade! Parecia que eu estava largando no chão, de uma vez, vários objetos que, de forma atrapalhada, eu carregava soltos nas mãos. Agora havia espaço e possibilidade para des-cobertas, agora poderia me abrir e experimentar sem a pressão e expectativas de já ter de saber algo sobre.

       Aceitar e sustentar o não-saber pode nos colocar vivamente naquilo que estamos envolvidos no momento. Ficamos atentos e cuidadosos ao andar por território desconhecido, e, facilmente displicentes e soberbos quando estamos montados na certeza e na convicção de conhecer plenamente o trajeto.

      Posso me preparar e organizar para uma conversa, uma aula, um atendimento, etc, mas posso saber realmente como esse encontro se dará? Não, só vou poder saber algo quando estiver junto e atento ao outro real ali comigo. Quem é ele/a? Como está? Como estou? O que precisamos, queremos? Quais as limitações, minhas e do outro? Qual nossa disponibilidade no momento? O que temos para trocar ali naquele momento? Talvez precise de recursos que não estavam em meus planos, talvez descubra com o outro novos caminhos para antigos dilemas, talvez não tenha respostas, talvez as tenha, mas elas não tenham nenhuma utilidade... talvez eu seja surpreendido pelo novo, o sempre inesperado novo. Só podemos estar vivos e inteiros com os outros se mantivermos um espaço interno para o não saber, assim o encontro será um estar junto, com o outro e comigo, uma experiência fresca, única e exclusiva. 

2 comentários:

  1. Oi Marcos, nunca tinha parado para pensar nessa possibilidade..... o Não saber é libertador.... Te abre para novas experiencias e conhecimentos.....Interessante;;; Gostei.
    Abraços
    Carla

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Carla,
      o não saber é a essência da meditação, da intuição, da revelação e da criação, embora seja desprezado em nossa era de informação total.

      Abração

      Excluir