1 de mar de 2017

Indo um pouco além


    

       A Quarta-feira de Cinzas demarca o início da Quaresma, período de mais de quarenta dias em que os católicos se preparam para a Páscoa. Para essa preparação são sugeridos momentos de reflexão, interiorização, oração e penitência. Essas são práticas conhecidas e utilizadas há milhares de anos pela espiritualidade e religiosidade universal. O devoto deve se propor a experimentar períodos de algum isolamento para confrontar-se consigo mesmo e com seus limites através de algumas práticas introspectivas. Tradicionalmente essa proposta está associada à atitude por vezes extremas e severas de ascese e purificação, partindo do princípio de que algo errado e pecaminoso precisa ser expurgado. 

          Nos primórdios do Yoga, antes ainda de ser chamado de Yoga, essa prática era conhecida como tapas, palavra que significa torna-se ardente, luminoso, radiante. Tapas é também um dos dez princípios éticos do Yoga e sua tradução é algo como auto superação ou auto esforço. No Yoga milenar a atitude de tapas associou-se fortemente com a prática de austeridade, que facilmente pode ganhar pitadas de auto agressão e punição impostas ao corpo e suas necessidades básicas. A questão mais importante não está na prática de tapas em si, que entendo ser essencial para a maturidade e desenvolvimento humano, mas na prévia consideração moral de que algo errado precisa ser punido e corrigido. Se tapas não for encarado como punição, pode ser então aproveitado como valioso instrumento de libertação.

       Essa proposta não precisa ser um exercício heroico e espetacular, nem associar-se ao sofrimento ou a quebrar grandes barreiras de uma só vez. Basta um pequeno novo combinado consigo mesmo para algo de novo já acontecer. Tapas é um convite para aproximar-nos daquilo que a rotina e as exigências do dia a dia nos afastam, a percepção sobre quem somos e como estamos. É um recurso que se bem aproveitado, ascende nossa luz e calor.  

        O mecanismo é simples, combine consigo mesmo uma pequena frustração e a cumpra. Só isso, uma frustração auto imposta. É como você criar uma nova regra para um jogo que perdeu a graça por ter ficado previsível e sem desafios. Qual a função dessa nova regra?  Recriar e reanimar o jogo, pedindo de você mais atenção, dedicação e respostas novas. Tapas é uma nova regra no jogo rotineiro da nossa vida diária, jogo que nos consome e engole, e não uma pena a ser cumprida. Tapas sem punição, sem penitência (apesar do significado da palavra tapas em português casar muito bem com a ideia de punição). Essa nova regra pode ser deixar de fazer ou passar a fazer algo, seja no âmbito mental, emocional ou comportamental. O que gera transformação é manter o combinado e observar o que acontece quando passamos por essa frustração auto imposta, quando sustentamos frustrar nosso próprio desejo.    

                 Boa Quaresma e bom tapas para todos nós!


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