6 de mar de 2016

Esqueça a neurociência



   Recentemente assisti a um simpático vídeo promocional sobre o trabalho de coach fundamentado na neurociência. Nele são apresentadas justificativas para que cultivemos a atitude de gratidão. Quem já experimentou sabe que a gratidão é um profundo sentimento que abre muitas portas, que nos permite novas formas de relacionamento conosco mesmos, com os outros, com nossas experiências e com a vida em geral. A gratidão aparece nas religiões e em muitas tradições da espiritualidade como uma chave para a abertura do coração e um dos meios de acessos a transformações pessoais e ao divino, e, juntamente com a compaixão e o amor, é um dos sentimentos essenciais que pode e deve ser cultivado na subjetividade do praticante. A gratidão dissolve a noção de individualidade e a percepção egóica de se estar à parte da criação.
      Mas o que me importou mesmo nesse vídeo foi a justificativa dada para se falar da gratidão. Deixou-se bem claro de que isso nada tinha haver com religiosidade ou fé, pelo contrário, era algo respaldado pelas ultimas descobertas da neurociência. Após essa importante ressalva o vídeo adverte que devemos sempre tomar decisões neurologicamente corretas, e então apresenta alguns esquemas sobre o funcionamento cerebral, explicando como determinada substância é inibida ou produzida no cérebro e de como isso promove ou não determinados sentimentos. Expõe-se um didático raio-x da fisiologia da gratidão. A neurociência explica a química que produz nossas emoções e demais experiências subjetivas, e ela nos mostra as provas desses dados em imagens ao vivo e a cores. Realmente é um avanço extraordinário que permite a compreensão de muitas questões comportamentais, patológicas e não patológicas, assim como abrir novas perspectivas para o que já se sabia. Atualmente o clássico bordão “Freud explica” parece estar dando a vez para o “a neurociência explica”.
      O vídeo pareceu ter me autorizado a cultivar a gratidão (autorização mais significativa ainda caso eu fosse alguém do mundo corporativo, público aparente do vídeo), e mais do que isso, me explicou de forma simples e acessível como ela funciona e como ela é benéfica e importante para que eu seja feliz. Acho louvável um sentimento como esse ser tema de aulas, de estudos, explicações e treinamentos. A humanidade agradece por isso, pois todos nos precisamos e nos beneficiamos do sentir-se grato.
    Mas faço esse comentário sobre o vídeo da neurociência apenas para fazer uma observação: as informações da neurociência sobre como o cérebro funciona e de como as reações químicas das emoções acontecem não fazem a menor diferença para a nossa experiência direta e pessoal. Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Saber a neuroquímica da gratidão não nos faz senti-la, assim como ler um cardápio não nos sacia, embora provoque nossa imaginação e estimule respostas fisiológicas. Saber sobre a fisiologia cerebral a respeito da gratidão, ou da depressão, não interfere em nada em nossa experiência pessoal e intransferível de estar grato ou deprimido.
       Hoje em dia não é difícil encontrar pessoas que se autodiagnosticam como depressivas, e que, além disso, oferecem-nos explicações sobre as causas da própria doença dizendo que é por falta de uma substância no cérebro. Também é cada vez mais frequente pessoas se interessarem e praticarem Yoga e/ou meditação com a justificativa de que essas são atividades com comprovados efeitos benéficos para o funcionamento do cérebro e de todo sistema nervoso. 
    Ao longo dos últimos anos a meditação tem recebido significativa atenção por parte da neurociência através de diversos estudos que explicam e ampliam a compreensão de como ela realmente funciona. Isso é promissor e bastante louvável, tão bom quanto os estudos sobre a gratidão, mas não podemos confundir essas informações sobre a meditação com a meditação e nem o entendimento da fisiologia da gratidão com a gratidão. A imagem mental sobre a gratidão não é a emoção gratidão, o entendimento mental do que é meditação não é o estado meditativo. Nesse sentido, essas informações sobre, a respeito de, podem levantar muita poeira mental e embaraçar o acesso à experiência direta de meditar, ou de sentir-se grato.       O que a gratidão ou a meditação podem nos oferecer vai muito além das sinapses e dos limites do cérebro, mas esse além precisa ser vivido na pele, não pode ser apenas um conteúdo intelectual. Na verdade a meditação e a gratidão vão além do conteúdo mental, e o seu grande valor é exatamente esse, possibilitar a transcendência do nível mental e racional de consciência.
      Que os estudos e as descobertas da neurociência continuem, e que essas informações possam orientar novas propostas de políticas e estratégias de clinicas, hospitais, universidades, empresas, escolas, governos e da sociedade em geral. Mas quando você for meditar, esqueça a neurociência e todos os benefícios comprovados da meditação. Quando for para a vida, para a experiência imediata de sentir (que é quando a vida vale à pena) esqueça a neurociência e seus esquemas. Mais do que isso, esqueça principalmente quem, ou aquilo, que você supõem ser.

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