7 de abr. de 2013

Para além do certo


Nesses últimos dias estou com o refrão de uma música, da qual não me lembro o nome, dos Titãs na cabeça: “só quero saber do que pode dar certo”. Na verdade nunca gostei muito dela e até achava esse refrão um pouco exagerado, essa coisa de tudo dar certo e de não poder esperar (“não tenho tempo a perder”). Mas é exatamente esse refrão que escolhi, de alguma forma, para ser o meu mantra desses últimos dias, e a repetição dele me fez perceber e olhar para algumas coisas.

O que é dar certo? Quase sempre dizemos que algo deu certo quanto correspondeu, totalmente ou em grande parte, às nossas expectativas. Se planejo um final de semana na praia, talvez espere que faça sol e calor, que o mar esteja delicioso, que a praia não esteja lotada, etc. Ao ter um projeto na mente, já tenho uma expectativa, já tenho uma referência do que é dar certo e do que é dar errado. O meu plano, inevitavelmente, indica qual a direção que as coisas devem seguir para que ao final eu fique satisfeito. Satisfeito porque tudo deu certo, porque não houve espaço entre o que eu quis e o que de fato aconteceu. Dar certo é uma confirmação de nossa onipotência, e até dizemos que querer é poder.

É óbvio que o dar certo conforme nossos planos é fundamental em vários aspectos da nossa vida cotidiana. Como é bom quando o almoço sai como o esperado, na hora esperada. Como é bom poder planejar e cumprir metas relacionadas a dinheiro, a cursos, a viagens, a compras, e a várias outras mudanças. Planos trazem organização, perspectiva, direção. Porém, e sempre há um porém, a vida não se sujeita aos nossos planos. Não são eles que decidem uma infinidade absurda de eventos que nos rodeiam. Nossos planos são apenas um aspecto do que chamamos realidade, um aspecto de nossa inteira responsabilidade e que trás em si uma poderosa armadilha, a armadilha do apego.

Ter um plano é ter uma receita do que e do como algo deve acontecer. Ao me apegar a essa receita, e ao que considero o certo dela, posso não ter abertura o suficiente para descobrir que ela é só uma indicação, um caminho dentre muitos outros. Posso me fechar a outros “certos”, a outros caminhos, posso me fechar a surpresas, posso me privar do espanto, do encontro com o inesperado. O apego nos priva da revigorante renovação que o novo pode trazer para nossas vidas e é um gancho certeiro para o sofrimento. Quanto maior o apego, maior a expectativa, maior o investimento, maior a fragilidade e intensidade da perda e de sofrimento.

Não faz o menor sentido deixar de ter planos, a questão é o apego ao que achamos certo em relação a eles. Se só quero saber do que pode dar certo, que possa estar aberto aos muitos possíveis certos, que possa me desapegar. Se não tenho tempo a perder, que possa estar no presente, onde nunca há perda de tempo, onde sempre posso reavaliar planos e receitas e onde tudo pode dar certo.
É possível se apegar a uma nuven?

28 de mar. de 2013

Meditando e falando: uma experiência




Na postagem anterior (“Falando e calando, psicologia e yoga”) escrevi sobre o lugar da fala no yoga e na psicoterapia. Gostaria agora de compartilhar uma experiência que venho tendo há quase um ano, e que, de alguma forma, articula um pouco esses dois caminhos de auto conhecimento transformação pessoal.   

Desde maio de 2012 tenho organizado encontros mensais de meditação. Minha idéia inicial foi a de abrir a prática para qualquer interessado, e ao mesmo tempo, ter um grupo para meditar junto e poder trocar afinidades. Nesses encontros tenho tido contato com muitas pessoas que nunca meditaram e nem praticaram yoga, e isso tem sido bastante gratificante para mim, assim como o é o contato com aqueles que estão aperfeiçoando a prática que já tinham. O encontro é gratuito e não é preciso nenhum pré-requisito para participar. O grupo é formado, na sua maior parte, por participantes assíduos com uma parcela menor de participantes eventuais. Até agora tenho escolhido uma técnica diferente para cada encontro (já ocorreram 10), mas em breve pretendo fixar algumas e ir intercalando-as. O encontro se organiza da seguinte forma: faço uma breve explanação do que é a meditação e sobre a técnica sugerida, a seguir meditamos e depois abro espaço para comentários sobre o como foi a experiência pessoal daquela meditação.

E é este momento final que tem reservado agradáveis surpresas para mim. No início perguntava como havia sido a meditação mais para checar se tudo havia ocorrido bem, se havia alguma dúvida, ou coisa parecida. Talvez fosse mesmo mais um hábito de psicólogo, mas fato é que, no decorrer dos encontros foram surgindo temas e experiências bem interessantes nesses comentários finais. Através dos relatos de experiências foi possível elaborar com o grupo vários aspectos específicos da prática da meditação, tais como alguns detalhes sobre o como meditar e suas variações, mas principalmente, foram nesses momentos que vieram à tona temas relacionados à vida, ao amadurecer, ao enfrentar dificuldades, à felicidade, ao sofrimento, etc. Em um dos últimos encontros, onde a meditação foi orientada a partir do sorrir, o tema que emergiu no grupo foi a morte, e para mim foi forte, e inusitado, poder falar, e ao mesmo tempo sentir, sobre aspectos tão diferentes da vida: a leveza e a facilidade do sorriso e a intensidade, a dor e o mistério da morte.

A meditação acontece no silêncio de cada praticante, pois como se diz, é uma experiência da pele para dentro, mas ao compartilhar e relatar esse momento privado o praticante pode digerir melhor alguns conteúdos, pode elaborar melhor a sua prática e seu amadurecimento, e pode ainda, contribuir para o grupo e para o caminho do outro, fortalecendo aquilo que no yoga chama-se sangha, a força do grupo daqueles que buscam.



Para saber mais sobre os encontros de meditação acesse:      http://meditacaotaubate.blogspot.com.br/


22 de mar. de 2013

Falando e calando, psicologia e yoga


Nesta semana, em dois momentos distintos e com duas alunas diferentes, tive a oportunidade de conversar a respeito de uma grande diferença entre os caminhos terapêuticos da psicologia e do yoga. Nessas duas conversas falamos sobre o falar e o silenciar e sobre os benefícios de um e de outro. Uma das alunas disse que as práticas regulares de yoga estão-lhe fazendo muito bem, e isso vem acontecendo sem que ela precise verbalizar quase nada, algo diferente do que acontece em sua psicoterapia, onde a fala é constante. Acho esse um tema interessante.

Grande parte da proposta terapêutica da psicologia é embasada quase que exclusivamente na fala. É na fala que vários métodos terapêuticos se estruturam, proposta essa que começou cientificamente há mais de um século com Freud e a sua cura pela fala através da psicanálise. O termo fala aqui envolve também o não falar e várias outras formas de expressão corporais. Pode-se dizer, de forma genérica é lógico, que a psicologia acredita e aposta plenamente que a capacidade de expressão, do poder revelar o que se pensa e o que se sente ao outro e ao mundo é a melhor via de transformação, reorganização, cuidado e amadurecimento pessoal. Muito do que acontece de transformador no consultório psicológico se deve ao simples fato do paciente poder falar, e assim poder se ouvir. O terapeuta escuta, acolhe, mastiga, devolve, clareia o que é dito. O auto conhecimento vai se dando então pela fala, pela expressão de quem se é, ou de quem se julga ser. O caminho passa pela busca de expressão do mundo interno, o que está dentro precisa vir para fora. Hoje isso pode parecer senso comum e algo óbvio para qualquer um, mas não é assim, nem hoje e muito menos o foi no passado. Tanto é que a psicologia ganhou grande popularidade nos libertários anos 60 e 70, devido justamente às suas propostas de expressão, de espontaneidade e de catarse.


                             Eu falo, tu falas, ele fala, nos falamos

Se um psicólogo diz para o seu paciente: ”me fale sobre você”, “fale mais” ou “porque você não diz isso para ele?” o que diria um mestre ou um professor de yoga a seu aluno? Talvez até as mesmas coisas, e isso poderia ser bom para o aluno e a sua relação com o professor, mas não é isso o que mais importa aqui. No yoga e na meditação o foco não é a expressão, o colocar para fora, o desabafar. O trabalho é outro, o caminho passa pelo desmontar identificações, quebrar padrões e associações internas. O silêncio passa então a ser uma via valiosa, que potencializa em muito esse trabalho interno de observação e transformação. Isso não é o mesmo que isolamento ou distanciamento dos outros e do mundo, muito pelo contrário, pois a prática deve levar sempre a uma ampliação de consciência, e nunca a uma restrição dela. A busca da clareza segue aqui um rumo distinto do da psicologia, mas continua sendo entendida como o alicerce básico para um relacionamento saudável e verdadeiro com o outro e com o mundo.

Olhando agora para esses dois caminhos distintos, me vêm na memória vários dos grupos que já participei, tanto em retiros e cursos de yoga como em grupos de vivência, terapia e trabalhos psicológicos. Em comum a todos eles, muitas experiências, muitos convites e oportunidades para olhar com mais atenção e cuidado para si e para o que está acontecendo, a força do grupo ampliando a força pessoal e facilitando a quebra de barreiras.  Mas, enquanto que nos grupos psicológicos a troca e a fala entre os participantes é algo fundamental, nos encontros do yoga a clareza da experiência individual é que ganha valor, e não necessariamente a troca.

Se estes caminhos se dispõem a cuidar e a melhorar a condição do ser humano, talvez os dois tenham contribuição a dar, talvez os dois tenham razões, talvez os dois indiquem alternativas válidas para se ir um pouco mais além de onde estamos, seja falando, seja silenciando ou seja silenciando a fala.  

                                  Swami Muktananda dando uma dica


10 de mar. de 2013

Convite



   Uma ótima oportunidade para aprofundar a sua prática ou              
conhecer melhor o método Iyengar.

5 de mar. de 2013

Sustentando o não-saber



     Certa vez, em uma aula de um curso de formação, recebi algumas perguntas a respeito de um texto que falava sobre chakras. Como eu já tinha alguma noção sobre o assunto, fui respondendo mentalmente a cada pergunta, antes mesmo de ler o texto. Mas em determinada pergunta, que não me lembro mais qual era, fui surpreendido com a certeza absoluta de que eu não sabia nada sobre aquilo que acabava de responder. Minha resposta era apenas mental e não valia nada, era só um punhado de informações costuradas com deduções e associações que fui fazendo através de várias leituras. O que sabia eu realmente sobre chakras? Nada, apenas especulações que no fundo não faziam sentido algum para mim. Esta constatação foi inquestionável, o golpe foi certeiro e me deixou totalmente rendido em minha ignorância. Uma santa ignorância que me trouxe grande tranqüilidade e relaxamento, que me alinhou com o caminho do não-saber.

      Por que tinha eu que saber sobre chakras? Porque eles estão nas escrituras do Hatha-Yoga, porque vários livros falam deles, porque tudo mundo sabe um pouco sobre eles, porque um professor de Yoga precisa saber sobre eles..., bem, vários são os motivos que justificavam o fato de que eu deveria saber algo sobre chakras. Porém, esses motivos acabaram formando uma boa quantidade de entulho em minha clareza. Ter informações não é o mesmo que saber. Saber é ter o sabor. Só posso realizar o sabor, ter o gosto, através da experiência direta, momento em que conceitos e idéias podem facilmente poluir e distorcer a degustação da experiência direta do momento. 

         Eu tinha que saber e me descobri não sabendo. Que liberdade! Parecia que eu estava largando no chão, de uma vez, vários objetos que, de forma atrapalhada, eu carregava soltos nas mãos. Agora havia espaço e possibilidade para des-cobertas, agora poderia me abrir e experimentar sem a pressão e expectativas de já ter de saber algo sobre.

       Aceitar e sustentar o não-saber pode nos colocar vivamente naquilo que estamos envolvidos no momento. Ficamos atentos e cuidadosos ao andar por território desconhecido, e, facilmente displicentes e soberbos quando estamos montados na certeza e na convicção de conhecer plenamente o trajeto.

      Posso me preparar e organizar para uma conversa, uma aula, um atendimento, etc, mas posso saber realmente como esse encontro se dará? Não, só vou poder saber algo quando estiver junto e atento ao outro real ali comigo. Quem é ele/a? Como está? Como estou? O que precisamos, queremos? Quais as limitações, minhas e do outro? Qual nossa disponibilidade no momento? O que temos para trocar ali naquele momento? Talvez precise de recursos que não estavam em meus planos, talvez descubra com o outro novos caminhos para antigos dilemas, talvez não tenha respostas, talvez as tenha, mas elas não tenham nenhuma utilidade... talvez eu seja surpreendido pelo novo, o sempre inesperado novo. Só podemos estar vivos e inteiros com os outros se mantivermos um espaço interno para o não saber, assim o encontro será um estar junto, com o outro e comigo, uma experiência fresca, única e exclusiva. 

24 de fev. de 2013

De peito aberto



                      Representação do anahata chakra, o centro energético do 
                                          coração dentro da fisiologia sutil do Tantra      
                                 
       Durante uma aula em que conduzia os alunos em posturas de retroflexões (flexões do corpo para trás) uma aluna me perguntou qual era a importância de abrir o peito, já que eu estava dando tanta ênfase a isso. De imediato pensei: “ué, porque é bom!”, mas como isso não é resposta que se dê, fui tentando responder para ela acabei organizando melhor o que acontece nessa, por vezes, intensa modalidade de asanas.
        De imediato as retroflexões atuam diretamente na flexibilidade da coluna, além de envolver as áreas do pescoço, ombros e tórax. É nítida também a sensação de estimulação da circulação sanguínea. Esse intenso trabalho muscular e articulatório cria mais espaço para os órgãos internos e melhora a postura ao levar os ombros mais para trás e expandir a caixa torácica. Mas essa é a faixa mais superficial de que acontece numa retroflexão, pois um dos maiores e mais valiosos efeitos dessas posturas é sua ação direta na respiração. Abrir o peito é uma condição para se poder respirar melhor, com mais qualidade, mais amplitude e profundidade. O trabalho que se faz nas posturas para trás vai abrindo esse caminho, vai abrindo portas e janelas num corpo por vezes bloqueado e amarrado. Em quarto fechado é difícil entrar luz e ar fresco. Mas a abertura não pára por aqui, ampliar a respiração não é um fim em si mesmo, pois ela dá acesso a outras fronteiras mais internas.
     Assim como a respiração se sustenta no bom funcionamento do aparato físico e fisiológico para acontecer da maneira plena, as dinâmicas emocional e mental encontram também grande sustentação na qualidade respiratória. Ao abrirmos o peito e ampliarmos e aprofundarmos a respiração, criamos condições favoráveis para o desabrochar natural de conteúdos emocionais. A atenção nas sensações do corpo, a permanência na postura, a respiração consciente e o gradual avanço em aberturas maiores garantem um contexto de proteção e confiança. É freqüente em aulas de abertura do peito, ou de retroflexões, alguns alunos se emocionarem durante as permanências ou no final da prática. Geralmente dizem que a aula “mexeu” em alguma coisa por dentro, ou que ficaram mais sensíveis, mas que estão saindo melhores, mais leves e mais acordados. Lembro-me de uma aluna que teve, durante uma permanência mais longa em “setu bandha sarvangasana”, uma profunda e espontânea catarse em que reviveu, chorando muito, um doloroso evento da infância. O que aconteceu para que isso viesse à tona? Há muitas variáveis pessoais envolvidas em uma situação como essa, mas a abertura do tórax e o aprofundamento da respiração, aliados à consciência do que se está fazendo, aqui, são fundamentais para se poder chegar, tocar e cuidar do coração guardado dentro do peito. Coração que não se resume em um músculo pulsante, mas que expressa um amplo e significativo universo emocional e pessoal. Com tudo aquilo que emerge desse contato com o coração, há apenas uma regra a seguir: aceitar e acolher, sem necessidade da análise intelectual através de explicações e interpretações.
     Asanas, principalmente as retroflexões, são terapêuticos por si só, transformam nosso corpo, reorganizam nossas dinâmicas internas, abrem canais e trazem vitalidade e saúde, em todos os níveis e sentido. Abrir o peito nos asanas nos ajuda a abrir o coração para quem está conosco e impede, ou protela, pelo menos, de abrirmos nosso coração para um cardiologista. 

                             B.K.S. Iyengar em setubandha sarvangasana


14 de fev. de 2013

Vida nova


Minha sobrinha nasceu. Ela é linda e chama-se Carolina. Estar com ela, minha cunhada e meu irmão me fez reviver o nascimento da minha filha há sete anos. O distanciamento de ser tio permitiu-me observar outros aspectos desse milagre que é um nascimento. Enquanto acontecia o parto não me foi possível fazer outra coisas que não procurar silenciar. O que mais fazer diante de uma recém nascida? Ela acabou de fazer uma passagem entre mundos, está ainda imersa na união com o corpo da mãe, vive ainda na plenitude das sensações totais, acabou de chegar. O que fazer com quem acabou de chegar? Acolher, receber, atender, proteger, providenciar, ouvir, cuidar. O recém nascido encanta pela fragilidade de quem está chegando e começando. Quantos passos são necessários para se caminhar bem por este nosso mundo? Um longo, complexo e desafiante caminho ela tem pela frente.

O que fazer diante de um recém nascido? Nada além de ficar mais atento, mais sensível, mais disponível, mais quieto, mais imediato. Há algo de intenso na presença de um recém nascido. Quem a ele dá assistência é transformado, entra em outra freqüência, em outro tempo, em outro universo. Estar com um recém nascido é estar em um estado meditativo, é ficar num vazio cheio de presença, só ali, sem fazer quase nada, dando o tempo dele. Estar com um recém nascido é uma oportunidade prazerosa e amorosa de sair do turbilhão da rotina diária e ficar disponível, completamente disponível.

Que tal viver como se estivéssemos na presença de um recém nascido? Será que falaríamos as mesmas coisas que falamos, do mesmo modo? Nossos gestos teriam a mesma carga? Continuaríamos arrastados por nossa ansiedade e confusão? Será que seriamos mais sensíveis às nossas emoções e de quem está conosco? Nossa mão teria o mesmo peso, o mesmo toque? Nosso abraço e sorriso continuariam com o mesmo apelo de cumprimento social? Quanto de suavidade, de atenção e presença não desabrochariam em nossa rotina diária se estivéssemos na presença de um recém nascido?

Seja bem vinda Carolina!




Obs: muito dessa percepção eu devo a Frederick Leboyer e seu magistral, revolucionário e transformador livro “Nascer sorrindo”. Não consigo imaginar alguém que leia este livro sem tornar-se mais humano, independente de querer ter filhos ou não. 

5 de fev. de 2013

Somos o que comemos




Foi pela boca que cheguei até o yoga. Lá pelos meus 15 ou 16 anos tive anemia, suponho que pelo rápido crescimento que tive associado à má alimentação. Seguindo as orientações de um médico comecei a me alimentar melhor (nunca me esquecerei da lata de Sustagen), e isso despertou em mim o interesse não só pela alimentação de boa qualidade e alimentos naturais, mas também pela saúde e por hábitos mais saudáveis. Pesquisei alguns livros sobre o assunto, um deles era do professor Hermógenes que apenas citava algo sobre yoga, e dele fui chegando em outros mais específicos.  

A alimentação tem um papel valioso na prática de yoga, e na vida de todos, pois somos feitos de alimentos e eles determinarão não apenas nossa condição física, mas também nossa disposição emocional e mental. Basta ver qual é sua disposição após uma farta feijoada regada a caipirinha ou cerveja, ou então no dia seguinte a um excesso numa festinha de criança cheia de doces, salgadinhos e refrigerantes. Somos o que comemos. E a alimentação vai muito além da ingestão dessa ou daquela quantidade de calorias, ela tem haver com nossa vitalidade e saúde em geral, coisa bem maior do que a forma do corpo.

Tenho aprendido bastante desde o dia que comecei a ler sobre saúde e alimentação. Li e ouvi algumas orientações que me marcaram, algumas eu experimentei por um tempo mas quase todas tornaram se hábitos enraizados. Fiz aqui uma lista de orientações que mais me marcaram ao longo desses anos, são de várias pessoas de diferentes correntes de saber e quase todas possuem algo em comum: são simples e obvias. Faço isso sem nenhuma pretensão de desempenhar a orientação de um nutricionista, e sei que vários itens aqui são questionados por nutricionistas. Experimente, se lhe fizer bem, que bom, se não, deixe para lá.  

- Não coma nada que fuja de você ou que olhe para você.

- Se não estiver com fome, não coma.

- Beba os sólidos e mastigue os líquidos.

- Não beba durante a refeição.

- Agradeça e sinta-se agradecido antes de comer.

- Procure montar um prato com cores fortes e diferentes. 

- Prefira o cru ao cozido, prefira o cozido ao frito, prefira o fresco ao congelado

- Quanto mais in natura mais vitalidade.

- Nem todo alimento considerado bom é bom para você.

- Alimento bom é aquele fácil de se mastigar, digerir e eliminar.

- Evite comer o que precisa ser tirado de saquinhos, caixas, plásticos, vidros.

- Evite comer e beber aquilo que nehum animal come e bebe.

- Observe o estado de limpeza das panelas, pratos e talheres utilizados para fazer e ingerir seu alimento, assim estará o interior de seu corpo.

- Prefira sempre os 4 alimentos básicos do dia a dia na forma integral: sal, açúcar, arroz e farinha.

- Alimento refinado não é alimento, morreu, está finado duas vezes, enterre-o.
  - Saia da mesa com um cantinho no estômago, quase com um pouco de fome ainda.

- Seu estômago não é lixeira, porcaria é no lixo.

- Chupe laranja após as refeições.

- De tempo em tempo faça um pequeno jejum.

- Seu corpo sabe exatamente quanto, como e o que você precisa comer, sua ansiedade é que não deixa ouvi-lo.

29 de jan. de 2013

Mantenha o que importa


Neste ultimo domingo, no meio das ultimas noticias ao vivo pela TV, ouvi alguém dizendo: “é melhor tirar as crianças da sala”, em seguida pensei: ”seria melhor a TV desligada.” Não me pronunciei e a TV permaneceu ligada, vomitando realidades, e as crianças foram brincar em outro lugar, afinal aquilo não eram imagens e notícias apropriadas para uma criança ver. Mas me pergunto, seriam por acaso apropriadas para adultos?

Como alguém (criança, jovem ou adulto) recebe toda essa carga? Diria que essa é uma carga dupla, pois há o tema morte, no caso a morte trágica de muitas pessoas, e há, principalmente, a carga do como isso esta sendo comunicado e experimentado pela TV. Da morte podemos, e devemos, nos aproximar ao longo da vida, incluí-la em nossas perdas diárias, em nossas frustrações, em nossos sonhos, em nossos encontros com o inusitado. Desejar e vivenciar um real desfrute da vida nos pede a morte por perto. Sem ela qualquer castelo é de areia. Mas essa é uma empreitada que se faz abrindo os olhos e o coração para os acontecimentos do dia a dia, da nossa vida pessoal, é algo íntimo, artesanal, que envolve amadurecimento e entrega. Não se elabora a morte em noticias de TV. Muito menos se elabora a morte sendo platéia do sofrimento alheio, de saber detalhes de como foi a morte do outro, de ter indícios e palpites de quem é o culpado. Não nos aproximamos da morte assistindo uma reconstituição, nem ouvido testemunhos de sobreviventes e nem com os comentários técnicos de especialistas. Muito menos fazemos algo efetivo por quem esta sofrendo. Toda essa carga de informação impregnada de forte emoção torna-se agressiva, uma violência quase gratuita, que pouco acrescenta em nosso entendimento sobre a experiência de morte.

Diante de uma tragédia, o melhor a fazer é evitar outra. Em respeito a quem sofre de fato e ao que temos de lúcido, terno, tranqüilo e saudável, desligue a TV. Faça um pouco de silêncio e, esteja onde estiver, abrace carinhosamente quem está de fato mergulhado na dor. 

15 de jan. de 2013

Sem culpa


Quase todos nós carregamos um peso. Este peso é colocado em nossos ombros já bem cedo e o abraçamos por boa parte de vida, quase como se ele já não estivesse mais lá. Ele tem forte sabor religioso e tempera muitas de nossas ações, projetos e sonhos. Ele dá o tom de uma grande parcela de tudo o que o ocidente produziu em termos de relações humanas, valores, moral, ideais e cultura. Esse peso chama-se culpa.

Culpa de ser como se é, de precisar limpar-se, melhorar-se, aprimorar-se, negar-se e rejeitar-se para ser melhor, para ser como deveria ser.  Culpa de sentir o que não deveria sentir, de pensar o que não poderia pensar, de desejar o que não se deve nunca desejar. Culpa de vivenciar todas essa “coisas” que todos nós vivenciamos, mas em silêncio cúmplice. Culpa de não ser o melhor, o mais amado, o primeiro, o perfeito, o já pronto. Culpa por não ter sido bom, educado, compreensivo, saudável, amável, inteligente, esperto, bem sucedido, rico, poderoso. Culpa por errar, por falhar, por ficar devendo, por estar aquém, por não ter correspondido. Culpa por ser assim, um ser, humano.

Muitas vezes essa culpa não é identificada claramente, mas aparece de forma quase subterrânea, disfarçada e diluída em outras questões e conflitos. Através da lente do consultório psicológico esse emaranhado todo da culpa fica mais visível, e torna-se possível vê-la enraizada em nosso cotidiano. Assim como a psicoterapia, a prática de yoga e da meditação visam o auto conhecimento, o auto esclarecimento, e assim passam inevitavelmente pelas amarras da culpa.

Não há mágica, mas algumas experiências são fortes o bastante para gerar transformações, mesmo que sutis. Proponho um sankalpa para sua prática de relaxamento ou de meditação. Sankalpa é uma resolução, uma afirmação interior simples e direta que se repete mentalmente por um período, é como uma pedra jogada no lago mental que vai gerar ondas que se propagam até as margens. Deixe este sankalpa se propagar pelo seu corpo e mente por alguns minutos e depois fique em silêncio absorvendo os efeitos dessa afirmação:

“Não devo nada,

 absolutamente nada,

 para ninguém,

 nem ontem, nem hoje, nem amanha”  

Essa afirmação pode despertar situações pendentes já esquecidas, que você pode depois solucionar, se possível ou não. Ela também não nega, de forma alguma, o poder das relações afetivas e a nossa total interdependência emocional dos que nos cercam, pois todos nós dependemos de um jeito ou de outro dos outros, mas essa vivência é bem diferente do pesado e sufocante sentimento de culpa, de dívida e de falta.   



4 de jan. de 2013

Quando o passado se fez presente

                                             Eu aos 16 anos

Hoje acordei há uns 25 anos atrás. Despertei e fiquei um tempo ainda deitado e de olhos fechados, observando o que estava sentindo, parecia que estava na casa dos meus pais, em meu quarto num sábado de manhã, com uns 16 ou 17 anos. Foi mais do que uma lembrança, eu estava de fato lá. De maneira impressionante revivi muitos detalhes da rotina que tinha nessa fase da minha vida. Meus pais saiam de casa mais cedo para irem abrir a livraria e eu e meu irmão íamos depois. O quarto, a casa, as manhas, o trajeto, tudo isso muito claro, muito vivo, mas mais do que essas imagens, a sensação de estar vivendo tudo isso é tomou conta de mim. Quantos significados em hábitos banais, quantas experiências que escapam às palavras, anos depois, sem nenhum chamado, estava tudo ali novamente. Deixe essa sensação acontecer e aos poucos fui saindo deste estado e fiz minha prática matinal.

Após o café da manhã já me encontrava presente no dia de hoje e fui resolver várias coisas no centro da cidade. No caminho resolvi experimentar um pouco mais do que revivi espontaneamente ao despertar. Passei na casa de meus pais, e a partir de lá, fiz a pé o mesmo trajeto que fazia até a livraria. Gradativamente fui entrando no clima e lembranças foram brotando. A arquitetura da cidade mudou nesses anos e algumas casas surgiram e outras sumiram, assim como ruas, árvores e comércios. Faço freqüentemente esse mesmo caminho, mas não com essa percepção, e sim distraído em meus pensamentos com outras coisas.

Havia uma passagem pela estrada de ferro no fim de uma tranqüila rua de paralelepípedos, ela era cheia de arvores, larga, cercada pelos grandes muros de uma fábrica abandonada (a antiga Fite Juta). Hoje essa rua se transformou em um movimentado túnel barulhento e sem nenhuma arvore. Passar por esse trecho foi muito forte para mim, pois ao mesmo tempo em que olhava para a rua como está hoje, conseguia ver claramente a minha rua, que estava guardada por muito tempo não sei onde. As duas imagens se sobrepunham sem dificuldade e quanto mais isso acontecia, mais lembranças e sensações vinham. Não sabia que era tão marcado pela presença das arvores, pois me lembrei nitidamente de várias, que infelizmente não existem mais. Coincidentemente encontrei no caminho três antigos conhecidos, que assim como a cidade e assim como eu, também sofreram a passagem desses 25 anos. Tudo isso me tocou bastante, fui tomado por emoções que não imaginava sentir.

Dessa experiência fiquei com uma coisa, que o que de fato importa está dentro e não fora. Com isso quero dizer que aquilo que me toca é aquilo que tem significado para mim, que eu confiro valor e dou a cor para a realidade externa, e ela, sem o meu significado, não é nada para mim. Se caio de uma grande arvore, ou se pulo na frente de um trem, vou me machucar e ponto, mas o que essa arvore, ou esse trem, é e representa no jogo da minha vida só eu posso criar. A realidade não existe independente de mim e de como a desenho e esse é um fato de incríveis conseqüências, que pode nos libertar ou nos aprisionar. Qual rua é mais verdadeira, a que todos vêem ou a que trago no coração? O que me emocionou foi entrar em contato com todos estes significados, dos quais estava distante, mas que compõem minha história.

Mas que atitude ter para com todos estes conteúdos, com toda esta memória, essas emoções e estes significados? Acolhe-los carinhosamente é o máximo e o melhor que posso fazer, e após recebê-los bem, carinhosamente deixá-los ir. A bagagem não pode ser grande, não há porque carregar tudo e apegar-se é certeza de sofrimento e cisão interna. Ter um olho no hoje e um olho no passado deixa-nos vesgos, com a visão prejudicada, é uma forma de não estar presente, de não encarar e aceitar a vida no seu desenrolar aqui e agora. O consultório psicológico é basicamente movido por esse descompasso entre o ontem e o hoje, por esse nó entre o que foi, o que é e o que deveria ser. Todos os mestres e formas de yoga e meditação nos lembram de que o pior sofrimento é ter uma mente confusa e sem foco, perdida entre devaneios do passado e do futuro.  

Foi muito bom reviver uma parte do meu mundo de 16 anos, mas que bom fazer isso encima dos meus pés e pernas de 42.

28 de dez. de 2012

Um abraço da Amma


Fim de ano é época de desejar felicidade, sucesso, paz, amor, prosperidade, saúde.... Estamos encerrando um ciclo e começando outro, coisa que acontece o tempo todo em nossa vida, mas que agora ganha mais evidência e força. Que tenhamos mais atenção e cuidado com este momento, que a semente para o próximo ano seja forte e valiosa. O exemplo de mestres realizados pode ser um bom farol, uma boa referência da direção a seguir.



Amma, a Grande Mãe como é conhecida, é uma santa viva da Índia, um guru e um ser humano extraordinário. Sua história é a de uma menina pouco convencional que sempre esteve absorta em adoração a Deus. Dessa menina brotou uma mulher com força e energia (shakti) impressionantes. Amma é uma fonte inesgotável de shakti, e expressa isso de maneiras muito intensas como líder espiritual e como líder humanitária. Como guia espiritual Amma realiza grandes encontros com muitas pessoas, onde concede darshan (graça de estar junto com um mestre) cantando bhajans (mantras) e meditando. Esses encontros são marcados por um gesto peculiar de Amma, um abraço, pois ela abraça todos os participantes, um a um, e já ficou mais de vinte horas abraçando interruptamente. Além de ela não se esgotar, quem recebe seu abraço fica profundamente tocado e emocionado, basta observar as expressões dos abraçados/amados por ela. Mas sua força também é imensa como líder social e humanitária, pois ela é a fundadora da maior ONG do planeta, a Fundação Mata Amritanandamayi Math, reconhecida pela ONU e que integra uma enorme rede de atendimento com escolas, universidades, creches, asilos, hospitais, clínicas, farmácias e outras serviços para os menos favorecidos.

Amma oferece e acolhe tudo e a todos num grande abraço, não faz distinção entre espiritualidade e mundo social, entre contemplação e ação, entre quem é isso ou aquilo, apenas abraça calorosamente, e seu abraço tem poder transformador. Jay Amma!!

Que essa força conciliadora do abraço de Amma guie nossos passos durante o próximo ano e que todos possamos abraçar, e sermos abraçados, com a mesma verdade que ela aponta.



                                             Assista aos abraços