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6 de mai. de 2015

Quem é que tá podendo?



Já no final da primeira sessão pergunto ao paciente como se sente. Ele diz que está bem, que sente-se aliviado, pois esperava que eu batesse mais nele. Ele havia me contado uma parte de sua história, o que incluía a passagem por alguns terapeutas, psicólogos e psiquiatras, e que, em várias oportunidades “apanhou” de seus cuidadores. Na verdade foram situações de confrontos, de apresentação de limites e de não correspondências de suas expectativas o que ele chamava de apanhar, mas a expressão “me batesse mais” tocou-me especialmente, e despertou algumas lembranças.

A primeira delas foi do tempo da minha faculdade de psicologia. Entre nós alunos havia sempre um buchicho sobre quem estava fazendo terapia e de como ela estava. Esse buchicho esquentava quanto se discutia o quanto era bom o terapeuta de cada um, e atingia o seu ápice quando tentávamos deixar claro o poder de cada um deles. Um critério valioso para medir esse poder era o estado em que se ficava após as sessões. Sair arrasado, chorando, desorientado, decepcionado e zonzo era um ótimo sinal! Levar “uns tapas na cara”, umas cutucadas, umas alfinetadas, uns “presta atenção”, ficar sem chão, tudo isso também era entendido como muito positivo. Hoje tudo isso me parece um pouco exagerado, mas era assim que boa parte dos alunos do curso de psicologia avaliavam um terapeuta como bom.

Outra imagem que me veio foi a de algumas situações em que tive a valiosa oportunidade de escutar alunos do ensino médio falarem sobre seus professores. Alguns deles eram considerados bonzinhos, dedicados, educados, legais, mas com pouca ou sem nenhuma “moral” com os alunos. Eram coitados que não conseguiam dominar a turma, que perdiam as rédeas durante as aulas, que choravam e que se sentiam fracos e que não aguentavam o tranco de ser professor. Já alguns poucos professores eram “f....”, com esses eles não brincavam, pois sabiam que eles seriam enérgicos e não deixariam passar nada. Admiravam e temia esses professores durões, apesar de não sentirem-se bem em suas aulas e de não acharem que explicavam bem a matéria. Lembrei-me também de um professor que tive e da postura de alguns professores de Yoga que se destacam pela atitude austera de tratar seus alunos. Tapas, fala rude, cara feia, broncas, rigidez técnica, correções exageradas, aulas muito exigentes.... Tudo em nome de um alto nível de Yoga que muitos alunos pagavam caro para ter.

Lembrei-me também da minha inesquecível época de quartel, ambiente povoado por figuras únicas. Uma delas era um certo capitão com forte sotaque carioca que usava uma boina vermelha. Paraquedismo, sobrevivência na selva, infantaria, técnicas de guerra... ele já tinha feito de tudo no mundo militar, era o próprio Rambo, o “cara” do quartel. Era temido e admirado, intensamente, pelos soldados pela austeridade e rigor com que tratava qualquer situação. Aí de quem fizesse alguma coisa errada perto dele!

Recordei-me de mais algumas outras situações, mas essas já são suficientes para constatar o quanto o poder nos atrai. Todos esses personagens que recordei estavam emanando poder, ou, melhor dizendo, estavam sendo vistos como possuidores de muito poder por seus “subalternos”. Os alunos da psicologia, do ensino médio, do Yoga e os soldados faziam essa generosa concessão à essas figuras. É como se houvesse o seguinte diálogo entre eles: “Veja como eu tenho poder, como eu posso, como eu sei, como sou grande e potente!!”, e do outro lado: “Sim eu sei, eu vejo o quanto você é poderoso e o quanto eu sou fraco, ignorante, inseguro e incapaz, e por isso mesmo tenho por você admiração e temor.” Um diálogo silencioso e invisível, mas que determina as posições de cada um no jogo social, e que tem o real poder de traçar diferentes destinos.

Essa distribuição desigual de poder nos diferentes papéis parece até ser adequada aos objetivos militares, ou àquelas situações onde a intenção de se controlar conduzir o outro se entende como necessária, apesar de tal conduta ser sempre discutível. Mas o que é de se pensar seriamente é a presença dessa situação de poder nas relações de cuidado e aprendizagem. Um professor encarnado de poder não abre espaço para a aprendizagem e descobertas de seus alunos. Um professor de Yoga berrando poder não facilita em nada o mergulho do aluno em sua prática. Um terapeuta sentado no trono do poder não legitima e nem apóia a autonomia de seu paciente. 

Todas essas situações criam a falsa sensação de que só um lado da moeda possui poder, de que há aquele que o tem e há aquele que não o tem. Vaidade bem alimentada de um lado e estima desnutrida do outro. Profundo equívoco, e eficiente forma de se dar o primeiro passo para a luta e guerra pela conquista do poder. 

24 de fev. de 2014

O yoga, o zen e os beatniks

                                      Zazen, ou seja, meditação

         Sempre ouço alguém dizer que precisa praticar yoga para ficar mais “zen”, ou então que não pretende praticar yoga por acha-lo muito “zen”. Há também os comentários de que fulano é muito “zen” ou que tal lugar é “zen”, ou ainda, que fazendo isso ou aquilo se pode ficar mais “zen”. O termo zen é usado como um adjetivo que expressa relaxamento, descontração, paz, tranquilidade e sossego.  Ás vezes, nas entrelinhas, parece até que esse estado é um luxo ou algo que alguém que é sério e responsável não teria tempo e nem pensaria em usufruir. Aí então o estar “zen” sugere alguém meio “viajandão”, meio desconectado, aéreo e desligado.

         Esse me parece ser o significado corrente para o termo zen e sua associação com o yoga. Mas o que é o zen? Zen é uma vertente do budismo que se originou na China e que ganhou força no Japão medieval. A palavra zen significa meditação e uma de suas principais escolas (soto) baseia-se basicamente no sentar para meditar (zazen). A prática do zen-budismo em nada se aproxima do significado popular que lhe atribuímos aqui, o que vale igualmente para todos os ramos do yoga. Por sinal, nunca ouvi falar de um caminho de amadurecimento ou de desenvolvimento da espiritualidade que seja parecido com o nosso ser “zen”.

          Como nada achei que pudesse esclarecer essa equivocada associação, acabei criando eu mesmo uma hipótese. O zen foi uma das primeiras manifestações religiosas do enigmático oriente a se tornar popular no ocidente. Nos anos 50 e 60 alguns conceitos do zen começaram a circular nos meios artísticos e filosóficos da Europa e EUA, mais especificamente entre os poetas beatniks norte-americanos. Havia neles a intenção de não conformidade, de rebeldia, marginalidade e originalidade, e dentro dessa proposta, uma abertura para algo espiritual. A geração beat sacudiu o jeitão americano de viver e para isso adotou fragmentos do zen, assim como o uso de drogas, de viagens sem rumo, da marginalidade, de novas formas de escrever e principalmente de viver. Dessa sacudida vieram os hippies e a contracultura que se espalhou pelo mundo no final dos anos 60.

            Mas os beatniks, assim como os hippies, não eram praticantes do zen e acabaram criando uma imagem peculiar do zen que não representa bem o zen. No zen, assim como no yoga, é fundamental a disciplina, que nada mais é do que uma prática atenta, dedicada e constante. Há também as essenciais figuras do mestre e da tradição, além do objetivo ultimo de libertação. O zen e o yoga em muito se aproximam um do outro, assim como em muito se distanciam dos beatniks e dos hippies, embora pareça ter sido uma grande oportunidade de abertura e mudança social essa associação inicial entre o zen e o relaxado.

            Diante disso, com uma pitada zen, podemos dizer:

                                   Sim, o yoga é zen!

                                   Não, o yoga não é zen! 

5 de mar. de 2013

Sustentando o não-saber



     Certa vez, em uma aula de um curso de formação, recebi algumas perguntas a respeito de um texto que falava sobre chakras. Como eu já tinha alguma noção sobre o assunto, fui respondendo mentalmente a cada pergunta, antes mesmo de ler o texto. Mas em determinada pergunta, que não me lembro mais qual era, fui surpreendido com a certeza absoluta de que eu não sabia nada sobre aquilo que acabava de responder. Minha resposta era apenas mental e não valia nada, era só um punhado de informações costuradas com deduções e associações que fui fazendo através de várias leituras. O que sabia eu realmente sobre chakras? Nada, apenas especulações que no fundo não faziam sentido algum para mim. Esta constatação foi inquestionável, o golpe foi certeiro e me deixou totalmente rendido em minha ignorância. Uma santa ignorância que me trouxe grande tranqüilidade e relaxamento, que me alinhou com o caminho do não-saber.

      Por que tinha eu que saber sobre chakras? Porque eles estão nas escrituras do Hatha-Yoga, porque vários livros falam deles, porque tudo mundo sabe um pouco sobre eles, porque um professor de Yoga precisa saber sobre eles..., bem, vários são os motivos que justificavam o fato de que eu deveria saber algo sobre chakras. Porém, esses motivos acabaram formando uma boa quantidade de entulho em minha clareza. Ter informações não é o mesmo que saber. Saber é ter o sabor. Só posso realizar o sabor, ter o gosto, através da experiência direta, momento em que conceitos e idéias podem facilmente poluir e distorcer a degustação da experiência direta do momento. 

         Eu tinha que saber e me descobri não sabendo. Que liberdade! Parecia que eu estava largando no chão, de uma vez, vários objetos que, de forma atrapalhada, eu carregava soltos nas mãos. Agora havia espaço e possibilidade para des-cobertas, agora poderia me abrir e experimentar sem a pressão e expectativas de já ter de saber algo sobre.

       Aceitar e sustentar o não-saber pode nos colocar vivamente naquilo que estamos envolvidos no momento. Ficamos atentos e cuidadosos ao andar por território desconhecido, e, facilmente displicentes e soberbos quando estamos montados na certeza e na convicção de conhecer plenamente o trajeto.

      Posso me preparar e organizar para uma conversa, uma aula, um atendimento, etc, mas posso saber realmente como esse encontro se dará? Não, só vou poder saber algo quando estiver junto e atento ao outro real ali comigo. Quem é ele/a? Como está? Como estou? O que precisamos, queremos? Quais as limitações, minhas e do outro? Qual nossa disponibilidade no momento? O que temos para trocar ali naquele momento? Talvez precise de recursos que não estavam em meus planos, talvez descubra com o outro novos caminhos para antigos dilemas, talvez não tenha respostas, talvez as tenha, mas elas não tenham nenhuma utilidade... talvez eu seja surpreendido pelo novo, o sempre inesperado novo. Só podemos estar vivos e inteiros com os outros se mantivermos um espaço interno para o não saber, assim o encontro será um estar junto, com o outro e comigo, uma experiência fresca, única e exclusiva. 

2 de set. de 2012

Yoga é uma religião?

Senho Shiva, deus hindu que representa o yogue pleno e realizado

       “O que Yoga tem haver com religião?” Assim me perguntou, quase ansiosamente, uma aluna iniciante no final de nossa primeira conversa. Ela imaginava que a prática lhe traria muitos benefícios, mas preocupava-se em saber se não estaria se envolvendo com um tipo de seita de alguma religião oriental. Outros alunos já me fizeram essa pergunta, e eu mesmo já me fiz muitas vezes essa mesma pergunta, já busquei respostas, já fiquei em conflito, já deixei para lá, e, já retomei essa questão: qual a relação do Yoga com a religião?
     O Yoga, por uma questão histórica e geográfica, tem muitos elementos do hinduísmo, a milenar e multifacetada religião da Índia. Mas o hinduísmo também possui muitos elementos do Yoga, assim como o budismo também possui. A Índia é um grande caldeirão cultural onde tudo pode ser interligado, conjugado e mesclado. Mitos, lendas, ritos, tradições, crenças e práticas diferentes não se excluem, ou se rivalizam, necessariamente (algo que nós brasileiros também fazemos um pouco). Dentro desse vasto universo, o Yoga é visto como uma filosofia prática de autoconhecimento, libertação e transcendência, e isso pode ser vivido dentro de um contexto religioso ou não. Não é necessário ser hindu ou budista para ser um praticante de Yoga ou de meditação.  Yoga é uma prática efetiva e poderosa de se estar consigo mesmo, de se conhecer a “realidade” externa e interna, e isso talvez seja mais adequadamente nomeado de espiritualidade do que de religião.
     Lembro-me de um aluno que começou a praticar por indicação médica e que rapidamente começou a gostar e a se interessar realmente pelo Yoga. Porém ele era evangélico, e logo entrou em conflito com sua fé e com as orientações de seu pastor. Uma semana depois que me revelou seu conflito, largou as aulas e não voltou mais. Perdi a chance de lhe dizer que a prática poderia ajudar-lhe muito a aquietar o coração e a orar, ou a entrar em silêncio para ouvir o que Deus tinha a lhe dizer. A espiritualidade mais fortalecida e vívida poderia ampliar sua experiência religiosa.     
    Para ser um praticante de Yoga não é preciso ascender incenso ou velas, não é preciso cultuar imagens de deuses hindus, não é preciso usar roupas indianas ou falar sânscrito. Também não é preciso fazer posturas inacreditáveis ou mudar-se para a Índia. Tudo isso pode ocorrer, e ser muito bom para algumas pessoas, mas não é essencial para se experimentar  o que o Yoga tem a oferecer. Não é necessário adotar a cultura hindu para se beneficiar e mergulhar no Yoga (embora esse contato possa ser muito enriquecedor, como foi e é para mim). 
       E aqui me pergunto: como um ocidental urbano, racionalista, tecnológico, consumista, mergulhado neste século da incessantes informações imediatas e externas, pode desenvolver uma prática coerente e profunda de Yoga? Como um típico ocidental contemporâneo pode vivenciar o Yoga sem precisar vestir retalhos culturais alheios ao seu mundo? Que prática de Yoga, sincera e profunda, é viável nos dias de hoje, para o homem de hoje?
    Yoga não é uma religião ou uma teoria especulativa sobre a vida, é um caminho prático para entrarmos em contato imediato e direto com aquilo que somos, Consciência, e nada mais.

Senhor Ganesh, o popular removedor de obstáculos

13 de jun. de 2011

Um assalto mental

Sábado, 5 h da manhã, um frio de chorar e eu na beira da Dutra, esperando meu ônibus passar. É fim de semana do curso de formação e a aula começa as 8:00h, lá em São Paulo. Meu ônibus passa, e, não pára. Aí... que frio, que pena, já estou atrasado. Como o próximo ônibus só passaria as 5:30 h, achei melhor ir andando até o próximo ponto para me esquentar um pouco. Na verdade acabei passando mais frio, era melhor ter ficado quieto, mas foi bom ir até o outro ponto.

Ao chegar no ponto dou de cara com um sujeito suspeito, com um pano no rosto, chapéu e uma roupa estranha. Percebo então, que um pouco mais acima, havia um outro homem em atitude suspeita, só observando. Pensei comigo: "já vou chegar atrasado, estou morrendo de frio e ainda vou ser assaltado!". Fiquei ali, tentando disfarçar e pensando no que fazer. E nada do ônibus. De repente, o homem que estava mais longe se aproxima, e eu então tenho a certeza, chegou a hora do assalto acontecer.

Nesse exato momento me vêm uma luz, uma clareza sobre como posso eu saber qual a intenção dele? Como posso eu saber o que de fato vai acontecer? Assim que penso nisso abro o peito e respiro melhor, alongo a coluna e firmo as pernas num tadasana espontâneo. O homem, que percebo ser na verdade um adolescente, pega o ônibus para São José dos Campos. No minuto seguinte um carro com conhecidos pega o mascarado para ir para o trabalho. E eu fico no ponto sozinho, rindo de mim mesmo e, confesso, agora um tanto aliviado.

Na verdade o alívio e o riso vieram pela implosão do castelo que fiz. Um castelo feito de padrões de pensamento, de julgamentos pré-estabelecidos sobre isso ou aquilo. Geralmente o preconceito é considerado um fenômeno social, mas ele ganha vida e é realizado na mente de cada um de nós a todo momento. Meu pré-conceito foi ter certeza que seria assaltado pelos dois "suspeitos", eu criei a tragédia e a anunciei como verdade. Uma verdade que só existiu dentro dos meus padrões mentais, dentro dos meus pré-conceitos. Realmente fui assaltado, fui abordado e rendido pelos meus próprios pensamentos.

Pré-conceito é uma pré-experiência, uma prévia, algo ensaiado, algo que já nasce meio pronto, meio conhecido de antemão. Como diria Cazuza, ele é como um museu cheio de novidades. Pré-conceito é o que nos bloqueia para o realmente novo, o original, o nascente, o que não sabemos. Nossas experiências podem ser sempre novas, nossos pré-conceitos não, são previsíveis, são um padrão que bate na mesma tecla, sempre. Ir além desses padrões e abrir-se para a experiência inédita que sempre temos pela frente é praticar yoga, é ter a mente leve, disponível e arejada.