10 de ago. de 2013

O erro da resposta certa



Há algumas situações que vivemos ao longo da vida, principalmente na infância, que nos fazem acreditar seriamente que sempre há uma resposta certa para tudo.  Um ambiente que estimula muito essa crença é o escolar tradicional com suas avaliações e notas. Provas de múltiplas escolhas, onde só uma resposta é certa e as outras quatro, que além de erradas podem ser “pegadinhas”, são a concretização exemplar dessa crença. Passar por uma prova como essa é aprender que, realmente, só existe uma alternativa certa, e é preciso cuidado com as respostas erradas, pois elas além de não valerem nada, são ainda enganações que nos afastam da conclusão correta. A alternativa certa é boa e desejável e a errada é ruim e lamentável. Nessa proposta há um saber já concluído, fechado, onde determinadas perguntas já possuem pares certos com determinadas respostas. Nesse baile muitas perguntas e respostas interessantes ficam sem dançar, ficam sem par, pois os casais já foram escolhidos bem antes do baile começar.

Essa é uma brincadeira meio sem graça, e se sobra alguma empolgação é apenas para tentar acertar o que já é tido como certo. Mas brincadeira boa mesma é aquela na qual não há um fim certo, um traçado já definido previamente. A graça está em não saber e, de repente, ser surpreendido por um saber, por algo com o qual não se contava, mas que foi verdadeiramente descoberto ali. Qualquer criança sabe disso e nos mostra isso o tempo todo. O gostoso está em brincar e não necessariamente em concluir. Grande é o prazer de mexer, inventar, revirar, fazer, refazer, desfazer, tentar, largar, voltar... Toda essa liberdade de experimentação difere muito do achar a resposta certa, única e definitiva, válida para todos e para sempre. Se o brincar tem o frescor daquilo que sempre se renova, que nunca está acabado, a resposta única e certa perdeu a graça de descobrir e brincar.

Sinceramente, em qual aspecto da nossa vida é possível se ter apenas uma resposta como certa? Em qual de nossos conflitos, impasses e dificuldades é cabível se ter a certeza de que só há uma solução possível? E quantas vezes, ao estarmos convictos de haver apenas uma saída, não fomos surpreendidos por soluções inesperadas, surpreendentes e incrivelmente mais simples e fáceis do que podíamos imaginar? Quanta limitação imposta voluntariamente em buscar apenas a resposta única e certa.  Quanto desperdício em descartar respostas tidas como erradas. Por sinal, a quantas aprendizagens e transformações não tivemos acesso exatamente com as respostas “erradas” que demos na vida? Se formos um pouco além do medo é possível viver sob o seguinte lema: “Que eu erre mais!”

Não existe isso de uma resposta certa, absoluta, definitiva, antecipada, o que há, realmente, é a resposta possível, aquela válida dentro de um contexto. As minhas limitações e possibilidades é que vão gerar minhas respostas ao mundo e à vida, e quem pode definir até onde isso é certo ou errado? A resposta possível é aquela que diz quem sou, sem cola, decoreba ou sorte, já a resposta certa e única é coisa de vestibular, e só.


Essas reflexões me ocorreram observando diferentes alunos fazendo o mesmo asana (postura) em uma aula. O asana de referência era o mesmo, mas cada aluno criou a sua variação dentro de suas possibilidades, com mais, menos ou sem acessórios (já que o método Iyengar permite que realmente todos pratiquem!). Quem estava mais certo? Qual aluno era o melhor? Quem estava praticando melhor? Quem era o pior? A não ser que se esteja em uma prova escolar, ou se querendo alimentar julgamentos, comparações, exclusões e limitações, essas perguntas realmente não fazem o menor sentido. 

29 de jul. de 2013

O que o Papa não me falou


                               Papa Francisco no mesmo barco

O Papa Francisco tem na sua simplicidade e disponibilidade um poder realmente extraordinário.  Apesar de carregar nas costas uma enorme, ampla e complexa tradição de dois mil anos, ele age com a leveza de um simpático senhor indo comprar pão alegremente na padaria da esquina. Não que ele não exerça sua sacra missão de guia espiritual, daquele que interfere no mundo e na vida de milhões e milhões de pessoas. E não também que ele não saiba que é um líder e agente político e social em escala mundial. O Papa assume todos estes grandes encargos, mas ao mesmo tempo parece dizer: “não levem tudo isso tão a sério!”.

Percebo e sinto ele dizendo isso através de seus gestos espontâneos de sorrir, de cumprimentar a todos, de ser informal, simples e acessível, de não fazer distinções. Percebo isso a começar pelo nome que escolheu para si, ao cumprimentar o motorista, ao quebrar protocolos e em vários outros pequenos gestos que não o deixam diferir de nenhuma outra pessoa. Esse “não levem tudo isso tão a sério” não tem nada haver com desconsideração, falta de fé ou banalidade, pelo contrário, sinto que é pela real consideração, fé e importância que dá a todos à sua volta. “Venham, não levem tudo tão a sério, não fiquem aí parados pensando e protelando, há lugar para todos, todos podem, venham!”, sinto ele dizer isso sorrindo. E pelas reações que vi na sua visita pelo Brasil, não sou só eu que sinto isso, parece que muitos foram felizes aos seus braços.

Não quero aqui falar de religião, nem de moral e nem de política. Não tenho nenhuma pretensão de questionar ou apoiar o Papa e a doutrina teológica da Igreja. Estou falando apenas que a atitude franciscana do Papa Francisco fala mais, e vai bem além de pregações, discussões e propostas de salvação. O que me toca nele é mais o que ele não diz, é sua intenção cativante e sincera. Seus gestos, por serem pessoais, tocam pessoas, e isso é mais do que uma ideia, é mais do que o poder de uma autoridade. Pensando melhor, acho que seus gestos, por serem pessoais e simples, são mesmos é manifestações políticas, morais e religiosas, diria até quase revolucionários em nossos virtuais dias.

O “não levem tudo isso tão á serio” é na verdade um belo lema de desapego, de desprendimento. Não leve tão a sério suas pretensões, seus medos, suas seguranças, suas conquistas, suas posses, suas certezas, suas dores, seu orgulho. Desapegar-se é o coração de qualquer caminho espiritual, e não há nenhuma “verdade” teórica e teológica que se sobreponha a essa profunda vivência. A vida pautada no desapego produz frutos bem típicos, tais como leveza, profundidade, coerência, compaixão, irmandade, inclusão, simplicidade.  Lição dos Franciscos, do Vaticano e de Assis, e de todos os santos, mestres e iluminados: não leve tudo isso tão a sério!

16 de jul. de 2013

Por onde a sua atenção?


Arqueiro zen = atenção

Basta um mínimo de auto-observação para constatar que a nossa atenção é na verdade desatenta, ou melhor dizendo, que a nossa atenção salta de um foco para outro o tempo todo. Isso se torna evidente no constante borbulhar de pensamentos que passam pela cabeça, tal como um riacho em barulhenta cachoeira. Outra constatação bem objetiva dessa desatenção são os movimentos inquietos das mãos, dos pés e de todo o corpo, ou ainda o revelador olhar distante, perdidos em devaneios, olhando o que só existe no mundo interno. A atenção fragmentada em muitos focos torna-se desatenção, dispersão, distração. Um pensamento sobre isso, outro sobre aquilo, uma lembrança, um gesto, outro pensamento sobre um terceiro assunto, uma cena futura, um sentimento, outro pensamento, uma julgamento, um sentimento, uma conclusão, um quinto pensamento... . O ciclo não tem fim, podemos viver mergulhados nele, sendo levados para onde essa maré nos levar, embora às vezes ele seja entrecortado por um breve contato com o mundo externo, talvez no encontro com uma outra pessoa, real, ali no mesmo momento e no mesmo espaço.

É bom lembrar que a atenção tem um poder muito especial. Faça uma pequena, simples e rápida experiência sobre esse poder agora mesmo. Não deixe para depois. Apoie suas mãos nas coxas ou em uma mesa. Deixe as palmas para baixo e não mexa as mãos. Feche os olhos e por um minuto, ou um pouco mais, apenas pense e sinta a sua mão esquerda, nada mais do que isso. É bem capaz que algo surpreendente aconteça, experimente.
Bem, isso que você percebeu em sua mão esquerda é resultado do poder da atenção com foco. Ao ser direcionada a atenção ganha força, consistência, profundidade, e acaba transformando seu portador e seu foco. Se a sua atenção é capaz de fazer isso com sua mão em tão pouco tempo, o que não poderá acontecer se ela for direcionada ao longo de horas, meses e anos?
Há uma equação muito simples: onde está a atenção, está o coração. Assim, é dali mesmo, onde projetamos nossa atenção, que tiramos alimento para a alma. Aquilo que recebe atenção torna-se alimento, e no alimento nos transformamos. Isso é fácil de ser constatado, não importando se o alimento for uma fruta, um doce, uma dose de álcool, ou um pensamento, uma emoção, uma situação, ou qualquer outra coisa, externa ou interna. Do foco da atenção tiramos nosso alimento, que, conforme nossas escolhas, irá nutrir-nos ou intoxicar-nos.

O yoga pode ser definido como uma proposta de direção da atenção. Em toda a sua variedade de métodos o yoga sempre oferece um sentido para a atenção, há sempre esse cuidado essencial de canalizar o potente e fértil rio da atenção. Seja nas ações do corpo, seja na respiração, seja no corpo sutil, seja no colorido das emoções, seja no fluxo dos pensamentos, seja na pura presença, seja num aspecto da divindade, seja num som, seja num gesto, seja num rito, seja numa relação, ou ainda em várias dessas ferramentas juntas, haverá sempre no yoga um foco para a atenção. As muitas gerações de mestres yogues sempre deram a devida atenção ao fato de que a atenção precisa de uma casa, de um endereço, pois ela sempre está a movimentar-se nessa busca. Por que então não oferecer-lhe um lar? E por falar nisso, por onde anda a sua atenção?

4 de jul. de 2013

Quando se abandona o caminho


No finalzinho do encontro “Caminhos para a Meditação”, evento que reuniu 20 pessoas para estudar e praticar a meditação, surge a seguinte pergunta: “mas se a meditação faz tão bem, traz tantos benefícios e é tão simples, por que então tantas pessoas começam e param, e por que tão poucos meditam?”. Boa pergunta! Quem a fez foi uma dedicada aluna de yoga, que ao perguntar expressava uma indagação sincera, e me fez lembrar que eu mesmo já me fiz essa pergunta algumas vezes.

Acho que várias são as respostas possíveis para o porquê alguém deixa de meditar, ou praticar yoga, se isso é potencialmente tão positivo. Para começar, as pessoas não são iguais, não funcionam da mesma forma, não tem os mesmos valores, as mesmas habilidades, as mesmas experiências e os mesmos objetivos, portanto, o que é bom para um pode não ser bom para outro. Exatamente por isso existem tantas formas de praticar meditação e yoga, pois os diferentes métodos nasceram de, e para, diferentes pessoas e suas diferentes experiências. Talvez muitos dos que largaram a prática não tiveram a felicidade de encontrar, logo de primeira, uma forma ou um professor que fosse adequado para elas. O meu primeiro contato com o yoga e com a meditação foi com métodos bem diferentes dos que eu pratico hoje. E por que mudei? Porque não me sentia mais satisfeito e confiante com o caminho e com as ferramentas que tinha então. Experimentei outro método e outro professor e senti a revigorada que precisava, a caminhada ganhou fôlego e uma nova direção.

Além disso há uma condição fundamental para que o yoga e meditação deem os valiosos frutos do autoconhecimento e da transformação: a disciplina, constante e dedicada. Não há mágica e nem milagres, nem saltos espetaculares e gratuitos. Yoga e meditação só existem quando praticados, quando vivenciados. Como professor, observo que é comum o yoga e a meditação serem colocados pelo aluno na mesma prateleira em que coloca os hobbys, ou seja, daquilo que é bom, mas que não é essencial, e dessa forma, a prática não decola, não embala e nem ganha força. E é justamente a prática desse tipo que será facilmente abandonada, restando dela só uma esteira enrolada num canto ou um livro que não foi lido.

Há também de se considerar que, se o yoga e a meditação são caminhos para o autoconhecimento, essa empreitada nem sempre é fácil e nem sempre é agradável. Tal como no processo da psicoterapia, há trechos do percurso onde nos deparamos com aspectos incômodos da nossa personalidade, trechos onde nossos limites ficam evidentes e onde pretensões desmoronam. Esse é o exato momento que, se não houver o lúcido suporte de um professor e de um método, podemos abandonar a jornada, exatamente ali, onde iríamos transpor nossa condição limitante.

Mas ultimamente penso que o fator mais decisivo para que alguém largue a prática seja mesmo a solidão. Solidão de não poder compartilhar conquistas e dificuldades, de não ter a oportunidade de ouvir vivências semelhantes à própria. Solidão de achar-se um estranho em procurar e percorrer este caminho. Solidão de ver-se um isolado. Se de um lado a prática é solitária, que ocorre da pele para dentro e é sempre uma experiência interna, por outro, ela é uma situação relacional, pois envolve um saber que é trocado, que é compartilhado há muitas e muitas gerações. A clássica e nuclear condição professor/aluno é expandida quando se pode estar com outros buscadores, quando é possível estar junto num propósito semelhante. Estar junto é a lenha que produz mais clareza e calor para a caminhada. Esse estar junto em um propósito chama-se sangha em sânscrito. A falta de sangha (da associação com outros buscadores) esmorece e desorienta qualquer prática bem intencionada. Todos nós temos o que aprender e todos nós podemos ensinar, basta estarmos reunidos. 


Eu no caminho, com meu professor e outros caminhantes


20 de jun. de 2013

Convite especial



É com muito prazer que convido a todos para esse momento especial. 

O Encontro "Caminhos para a Meditação" é uma uma ampliação natural dos "Encontros mensais de Meditação". Nesse teremos mais tempo para experimentar e compartilhar a meditação e suas sutilezas. Serão quatro sessões com diferentes formas de meditação, permitindo que o participante possa identificar aquela forma que mais lhe tocar.

Para quem não medita o encontro será uma boa introdução, e para aqueles que já praticam será uma valiosa oportunidade de meditar em grupo. O evento acontecerá em uma agradável chácara, em meio da natureza e ao mesmo tempo próxima do centro de Taubaté. Está incluso um café da manhã no intervalo.

As orientações e conduções das meditações serão realizadas por mim e por Elisete Mattos.



14 de jun. de 2013

No congestionamento da comodidade.



Meu principal meio de transporte é a bicicleta. Procuro usar o carro apenas em situações especiais, tais como em dias de chuva, fazer compras, percorrer grandes distâncias ou quando há mais pessoas envolvidas. Já tenho meus trajetos e rapidamente faço o caminho, tanto para o consultório como para os locais onde dou aulas e para a escola da minha filha. O tempo de bicicleta é no mínimo igual ao do carro, e geralmente mais rápido, sem contar as inúmeras outras vantagens que todos já sabem bem. Num próximo texto vou escrever sobre o andar de bicicleta e a prática de yoga, mas hoje quero falar da comodidade e de disciplina.

Nas quintas feiras dou aula às 9h, mas antes dela levo minha filha na escola, faço a minha prática e tomo o café da manhã. Ontem, depois dessas atividades e antes de sair para a aula, parei um pouquinho e fiquei pensando nos atendimentos da tarde e da noite que teria pela frente, observei também como a manhã estava nublada e quase fria e... de repente... fui tomado por uma preguiça! Ir de bicicleta, agora? Ah, deixa para lá, vou de carro. E fui, e quando me dei conta, lá estava eu preso no meio de um congestionamento, cercado de outros carros, ônibus e caminhões. Resultado: cheguei uns 20 minutos atrasados na aula.

Mas o engarrafamento me foi muito proveitoso, pois nele acabei pensando em algumas coisas sobre a disciplina. Por que resolvi ir de carro? Por comodidade, pura e simples. E isso é errado? Lógico que não, mas pensando bem, e sendo um pouco mais atento, parece que a comodidade tornou-se um ideal bastante valorizado. Quantas propagandas de condomínios, de carros, de shoppings, de produtos e de serviços não usam esse argumento como isca? Talvez tudo possa ser mais vendido se trouxer comodidade, ou se pelo menos gerar a sensação de se estar ganhando comodidade, afinal ninguém quer passar por menos esperto e ficar se esforçando e se preocupando com detalhes desnecessários, queremos ter tempo livre para aproveitar a vida. Queremos todos ter prazer e desfrute, e de preferência que ele venha rápido, fácil e gratuito. Comodidade é então, quase sempre, aquilo que facilita, permite ou estende o prazer imediato. Nesse sentido comodidade é o oposto de disciplina. Não que a disciplina seja martírio, sofrimento, punição ou coisa do tipo, mas ela não considera nossos pequenos e constantes pedidos de comodidade. Disciplina é aquilo que permanece, é aquilo que, apesar das oscilações e variações do meio, se mantém de pé ao longo do tempo. No dicionário o termo disciplina está relacionado à submissão (um verdadeiro palavrão, pois quem quer se submeter a alguma coisa?) e comodidade ao conforto e a vantagem (acho que nem é preciso dizer nada).

Na busca do prazer pela comodidade, que facilmente gera acomodação, pode não haver espaço para a disciplina, mas ao mesmo tempo e quase ironicamente, o cultivo da disciplina produz flores e frutos que trazem grande prazer e satisfação. Uma significativa diferença é que a disciplina produz prazer em longo prazo, como resultado do empenho e do comprometimento contínuos. Não há atalhos, nem nada de gratuito, mágico ou comprável, há apenas a sustentação do compromisso assumido consigo mesmo. Nas grandes tradições a disciplina é uma ferramenta essencial, pois é inconcebível que alguém realize com sucesso a longa jornada de amadurecimento sem abrir não da comodidade.     

31 de mai. de 2013

Encontrando um bom guia



"Encontrei a vida - segredos da jornada interior", Swami Muktananda, Editora Vozes.

Neste livro, repleto de deliciosas histórias, Muktananda traça um valioso roteiro para os caminhos de desenvolvimento e despertar interior. Os capítulos descrevem as etapas e partes que compõem o sadhana, a prática de uma disciplina que leve à Consciência, ou ao estado do Ser, descrevendo de maneira simples e profunda questões sobre o ego, o Ser, o guru, a disciplina, Deus, amor e práticas. O final de cada capítulo é composto por respostas dele a várias indagações de alunos, por sinal, aquelas mesmas perguntas que fazemos durante os estudos e as práticas solitárias. Perguntas sobre o significado de conceitos filosóficos, hábitos de vida, alimentação, sexo, trabalho, relacionamento, religião, yoga, meditação, iluminação... 

Quando questionado sobre o sentimento de paz só ser possível quando nos afastamos do mundo social, Muktananda responde dando a direção que todo sadhana, toda busca de realização, deve ter:

"Faça com que a paz se torne inteiramente estabelecida em seu coração 
e leve-a de volta para o mundo"   

26 de mai. de 2013

Entrando e saindo de uma fria



Em dias mais frios me sinto melhor, mais disposto, e tenho a oportunidade de desfrutar melhor dos fantásticos efeitos do banho frio. Mas banho frio no inverno? Como assim? Bem, é isso mesmo, primeiro um banho quente e depois uma ducha final com o chuveiro desligado. O impacto do contraste das temperaturas faz milagres na fisiologia e traz um grande prazer. Só experimentando para saber. Apesar das muitas reticências que surgem imediatamente ao pensar nessa proposta, juro de pé junto que o banho frio vale muito à pena.

Recentemente acrescentou-se um algo a mais na minha experiência de banho frio, algo até mais valioso que o grande bem estar que ele sempre me trouxe. Há uns dias atrás, assim que desliguei o chuveiro e a água começou a esfriar, me percebi resistindo a ela, como se eu estivesse fugindo dela, apesar de estar ali por vontade própria. Parecia que eu estava recuando para dentro da pele, me afastando assim da água fria. Perceber isso foi interessante, pois me vi dividido em dois, um Marcos querendo o banho frio e outro Marcos se recusando a ele. Um lado não estava entregue, não estava de fato ali na experiência de sentir a água fria, talvez quisesse continuar com a água quente, ou talvez, nem quisesse ter saindo da cama tão cedo, não sei. Mas sei que ter percebido essa divisão me fez entrar de corpo e alma no banho frio, não mais resisti, deixei a água molhar e gelar a pele e a alma não foi para outro lugar, ficou ali mesmo.

Talvez a água gelada tenha intensificado a minha divisão interna, mas ela já me é familiar, não há nenhuma novidade nela. Estar em uma experiência e não estar presente, estar num local querendo estar em outro, fazer algo pensando em outra coisa, percebo isso acontecendo em mim muitas vezes durante o dia, às vezes de forma sutil e praticamente imperceptível. Antecipar ou relembrar pelo pensamento são forma de sairmos da experiência imediata e entrarmos num mundo paralelo ao aqui e agora. Meu corpo está em uma situação, mas o meu mundo interno, aquilo que considero como meu “eu”, está em outra situação, e muitas vezes totalmente desvinculada da experiência sensível do corpo naquele momento. Isso não é esquizofrenia, a conhecida e grave psicopatologia, mas possui a mesma dinâmica interna, a de se estar dividido e dissociado. Por sinal, o termo esquizo significa cisão, partido, assim como o estar conversando com alguém e na verdade estar mesmo é pensando no que fará quando se despedir dessa pessoa.

Perceber a minha resistência à água gelada me abriu para a experiência real da água fria, e é exatamente essa a proposta de muitas formas de meditação, abrir-se para a experiência real, direta, imediata, saindo da condição esquizo. Nada além, nada aquém, nada em outro lugar ou outro tempo. Tão simples e tão coerente, já que a vida só acontece aqui e agora no exato pulsar da experiência. E a nós cabe apenas escolher entre estarmos abertos ou fechados à isso.

19 de mai. de 2013

Disponibilidade é a chave

Estou retornando do III Encontro de Longevidade e Saúde, evento que ocorreu aqui em Taubaté e no qual participei dando práticas de meditação e pranayama. Foi um final de semana gostoso, intenso, produtivo e revelador. O encontro aconteceu num sítio muito bem cuidado e repleto de natureza. Comigo estavam também mais seis professores de yoga, tai chi, meditação, dança circular e educação física, e á toda essa ótima estrutura associou-se um grande tesouro: um grupo de quase 60 pessoas disponíveis!

Disponibilidade é uma chave que abre muitas portas, uma ponte que aproxima muitas margens. Ela é o grande lubrificante das relações humanas, da aprendizagem, das mudanças. Sem disponibilidade não existe professor, pois não existe espaço para troca, e nem existe o aluno, pois não há espaço para o novo. O professor alimenta-se da abertura do aluno em querer ir além de onde está, de seu mundo já conhecido. Se não houver disponibilidade no aluno em adentrar por novos territórios, resta ao professor pouco a fazer, no máximo um belo discurso (para ninguém). Por sua vez, se houver pouca disponibilidade no professor para estar próximo de seu aluno, para deixar-se tocar por ele, e assim, compreender seu mundo, pouco ele irá aprender, pouco ele irá além do que já conhece. Um professor que não é capaz de aprender é, no mínimo, uma grande contradição.

Sem disponibilidade a aprendizagem significativa, aquela que vale a pena, não pode acontecer. Sem disponibilidade não há transformação, não se sai do mundo já conhecido. Sem a presença da disponibilidade nenhum casal é possível, não há relação que sobreviva sem ela, e isso inclui o casal professor/aluno. Porém, quando ela está presente, a dança acontece e o casal se expande, vai além, se surpreende com o que é capaz de criar, e talvez até surja uma esclarecedora pergunta entre eles: mas afinal, quem ensina quem?

E é essa a minha constatação agora após o encontro, uma grande satisfação em ter trocado experiências e momentos com pessoas disponíveis, o que aumentou a minha capacidade de estar disponível. E disponibilidade é a terra fértil onde o yoga pode brotar e florescer.

                            Parte do grupo que se dispôs escalar o monte 

                               

8 de mai. de 2013

Tão bom que não quero





No meio do vai e vem e da agitação constante de uma academia de ginástica, aparece uma aluna nova. Chega falante, querendo malhar, querendo queimar, querendo extrapolar. Faz a aula e vai aos poucos mudando a freqüência. No final está com a fisionomia serena e com um leve sorriso no rosto. Ao perguntar-lhe como estava sentindo-se responde um convincente: “estou muito bem”.

Essa aluna some. Depois de quase um mês a encontro no corredor da mesma agitada academia. No meio do constante vai e vem de alunos, todos correndo atrás de novas modalidades de fitness, tivemos uma breve e significativa conversa:

- Como você está?

- Tudo ótimo!        

- Eu amei a aula, me senti muito bem, tão bem que me estranhei. Em casa eu nem xinguei a empregada. No serviço várias pessoas falaram que estava mais tranquila, sem ficar implicando e brigando com eles. Achei isso meio esquisito e acho que não posso ficar assim, acho que a aula acabou fazendo mal para mim. Não posso ficar de boa, senão o que vai acontecer comigo?

Um instante de silêncio e um ponto final: “mas eu gostei muito viu, um dia eu apareço”. Nos despedimos rapidamente, pois uma nova aula de uma nova modalidade estava começando. No movimento da academia há sempre mais músicas, mais aparelhos, mais novas metas, mais novos alunos, há sempre um novo mais.

Na hora não consegui responder a sua pergunta, e nem sei se ela queria uma resposta, pois fiquei mesmo é encantado com esse paradoxo que ela expressou tão bem: queria sentir-se bem e quando encontrou isso, estranhou-se e se afastou. Que maravilha o que ela disse! Não é esse o nosso paradoxo? Transpor resistências, sair das distrações e suportar o que realmente importa. Não é esse um grande conflito do humano?

E usando esse caso apenas como gancho, não há como não pensar em algumas questões que podem ser reveladoras para todos nós (no lugar do ela coloque eu):  

O que será que a impediu de suportar a experiência de sentir-se bem?

O que a fez estranhar-se?

O que é esse estranhar-se?

O que ela não pôde abandonar?

Se ela ficasse desarmada o que aconteceria com ela?

Ela estava com medo do que?

Quem estava com medo?

O que estava resistindo?

27 de abr. de 2013

Yoga é uma ética




O yoga, antes de tudo, é uma ética. E o que é ética? Sendo bem simples, ética é uma proposta de vida boa, uma vida que valha a pena ser vivida, uma vida que contemple a todos, e que permita a todos serem plenos.

Yoga é uma ética, mas não uma ética teórica de como a vida e o humano deveriam ser. Yoga é uma ética vivencial, tão efetiva e real quanto nossas ações e palavras. Uma proposta que não se origina, e se finda, em discussões e textos, mas de experiências consigo mesmo e com o outro.

O yoga, como uma elaborada e complexa forma de amadurecimento e espiritualidade, tem seu alicerce estabelecido em uma ética. Sem este alicerce o yoga desfigura-se em qualquer outra coisa. Mas que ética é essa? Que princípios são esses? Mais uma vez tentando ser bem simples, o yoga entende que se o ser humano não for livre, radicalmente e profundamente livre, viverá em sofrimento, e para facilitar que este estado de liberdade (moksha) seja plenamente vivenciado, o yoga propõem alguns princípios e algumas técnicas.

Sri Patanjali, em seu clássico “Yoga sutra”, elaborou dez princípios éticos para o yogui, os yama e niyama. As diversas linhas de yoga possuem ainda outros princípios, além de seu próprio arsenal de técnicas, sendo que talvez as mais numerosas estejam nas diferentes correntes do hatha yoga. É impressionante, por exemplo, a amplitude que os asanas, as posturas, ganharam hoje em dia entre boa parte dos praticantes, indo praticamente ao infinito as possibilidades desta técnica.

Mas é bom não esquecer que yoga é, antes de qualquer coisa, uma ética, uma proposta de vida plena e as técnicas só ganham sentido dentro desta proposta maior. E no que se transformam as técnicas sem o alicerce dessa ética? Continuam técnicas, ainda bonitas, curiosas, saudáveis, interessantes, valiosas, às vezes estranhas, mas sem o alicerce ético são apenas técnicas que facilmente morrem em si mesmas, são como paredes que sozinhas não conseguem formar uma casa sólida, e muito menos um lar Daquilo.

16 de abr. de 2013

Não é o corpo que sofre


Para que servem as famosas posturas do yoga, os asanas? Ou, melhorando a pergunta, qual a função e o que provocam essas técnicas? Bem, servem para quase tudo, desde alongar músculos e corrigir a postura até estimular órgãos internos e glândulas. Algumas posturas são ótimas para partes específicas do corpo, outras são verdadeiros remédios para algumas enfermidades, outras são restauradoras e outras bastante revigorantes. E quando acrescentamos à elas os cuidados dos alinhamentos e o uso de acessórios, todos esses benefícios são multiplicados muitas vezes. Realmente os asanas são uma fonte inesgotável de contato, descoberta, cuidado e tratamento do corpo.

Mas os asanas são também uma forma poderosa de entrarmos em contato não apenas com o corpo físico, mas também com o corpo emocional e mental (assim é chamado no yoga o aparelho psíquico). Mas como? A permanência em uma postura permite que emerjam não apenas dores musculares ou desconfortos em articulações, ou a falta de força ou de equilíbrio, mas também desconfortos de outros lugares internos. Nas posturas deparamo-nos cara a cara com ninguém menos que nós mesmos, com nossos padrões, limites, bloqueios, feridas e imagens internas que temos sobre quem achamos que somos. As posturas revelam um corpo desnudo, ou melhor, elas desnudam as muitas intenções que revestem o corpo físico. As posturas mostram, por vezes, um corpo maquiado, que não condiz com seus reais traços, e deixam à mostra a distância entre o que se é e o que se acredita ser. Mas não só, pois elas também permitem abrir um espaço valioso para que o corpo possa aproximar-se do que de fato é, sem os disfarces, distorções e pretensões do ego.

Lembro-me de um aluno que tinha lesões e dores no joelho, e que por isso tinha algumas restrições em posturas. É lógico que saber um pouco sobre joelhos e ter algumas alternativas para oferecer ajuda muito o professor a ajudar o aluno. Mas essa é só uma parte da história. Esse aluno sabia das limitações de seu joelho e sabia das alternativas para lidar com ele, mas não as fazia, ou se fazia, fazia sentindo-se mal. Por quê? Porque para ele o joelho era sentido como uma ferida aberta, não no território corporal do joelho físico, mas no seu ideal de desempenho, na sua imagem interna a ser sustentada. O joelho o colocava frente a frente com a desagradável sensação de limite, que era sentida como humilhação, inferioridade e vergonha. O joelho era o ringue onde ele entrava em combate consigo mesmo. Cuidar da dor do joelho ajudava, mas isso podia não tocar na questão da dor egoica. Foi bom poder conversar com ele e dizer o quanto ele brigava consigo mesmo, e que como esse era um ponto fundamental para que sua prática de yoga pudesse evoluir, não apenas por cuidar do joelho, mas principalmente por perceber e poder reinventar sua inflação egóica de ter de ser o melhor.

Quase sempre o sofrimento não está no corpo, não é ele que sofre, mas sim aquele que o está desconectado do próprio corpo.